UM FILME SOBRE A DOR UNIVERSAL
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de maio de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Cannes Especial para a Folha 2 
Seja qual for o resultado a ser anunciado hoje à noite, em cerimônia de premiação conduzida pela atriz Charlotte Ranmpling, o 54º Festival International du Film de Cannes tem pelo menos um vencedor, independente de Palma de Ouro, Prêmio Especial do Júri, Prêmio do Júri Ecumêmico e outros menos votados. O Quarto do Filho, além de bem aceito pela grande maioria da crítica internacional, garantiu a ampla abertura do mercado mundial. Também comercialmente o filme deve funcionar sem problemas.
Ao 47 anos, Nanni Moretti vira uma página de sua carreira depois de uma obra (9 filmes em 24 anos) basicamente centrada em sua persona, de intelectual e artista com cores políticas definidas. Mais maduro, deixou de lado a imagem do herói de si mesmo em filmes mais recentes como Caro Diárioe Aprile, interessantes e estimulantes mas perigosas etapas autobiográficas de mão única, caminho do umbigo. Três anos depois de Aprile, deslumbrada descoberta da paternidade, Nanni Moretti é novamente readmitido na competição oficial com uma obra sobre a perda do filho. Aqui desaparece a autobiografia, e em seu lugar, com base na ficção ilimitada, o roteirista-dirtetor-ator tenta compreender a universalidade da dor que esmaga física e psicologicamente uma família.
La Stanza del Filho(O Quarto do Filho) começa com os dias felizes de uma família unida. O pai, Giovanni( Moretti), psicanalista; a mãe, Paola (Laura Morante), e os filhos adolescentes Irene (Jasmine Trinca) e Andrea (Giuseppe Sanfelice). Num domingo, o garoto sofre uma acidente enquanto faz pesca submarina e morre. A partir daí, Moretti filma a dor, a presença da culpa, os arrependimentos, a crise do casal.
A súbita explosão do filme em Cannes fez crescer muito o interesse em ouvir Nanni Moreti, depois da exibição. O que não impediu que entrevistas solicitadas previamente - a Folha já tinha agendado antes do início do festival - fossem mantidas. A seguir os principais trechos da conversa com um Moretti cansado, visivelmente feliz e respondendo só em italiano, no lobby do Hotel Carlton Intercontinental.
Por que abordar o tema da morte, e especificamente, por que a morte de um filho?
Eu jamais pensaria num tema como este há vinte anos. Mas o tempo passa, o que quer dizer que o tempo que resta fica cada vez mais reduzido. Eu tive um cancêr linfático há alguns anos, e não sei exatamente o que a doença mudou em mim. Não tenho mais tempo para pensar na minha própria morte, o que não me impede de refletir sobre a dor de uma perda em La Stanza del Figlio.
Por que o pai, Giovanni, é um psicanalista? Algum motivo especial?
Sempre foi um profissional que sempre me intrigou, no dia a dia. No filme, tive a oportunidade de repentinamente irromper na vida do personagem, no consultório dele com uma carga imensa de dor, esta dor enorme que é a morte de um filho. Queria ver como ele reagiria, ele que todos os dias deve administrar a dor de outras pessoas.
Giovanni parece que não vai vencer sua própria dor e nem continuar o trabalho. É uma constatação de fracasso?
Não se trata de fracasso. Simplesmente ocorre a Giovanni alguma coisa terrível em face aquelas teorias impostas. Abandonar a profissão é uma escolha, é tudo, ele se conscientiza que não pode mais exercer.
O senhor não foi morettiano em O Quarto do Filho. Isto era, de fato, uma coisa intencional?
Sim, e foi por isso que pela primera vez trabalhei com dois roteiristas, duas mulheres, Linda Ferri e Heidrum Schleef. Senti que O Quarto do Filho precisava de uma certa linearidade, de uma certa simplicidade. Para este tema, todas as referências de atualidade política, cultural ou cinematográfica eram inuteis. Por ironia, ainda há alguns ecos disso tudo na primeira metade do filme. É claro que depois da morte de Andrea os personagens mudam, e de fato o diretor e sua maneira de narrar deveriam mudar também.
O senhor realizou um filme muito delicado para um tema muito duro. Esta delicadeza, esta ternura vinham desde o início do projeto ou foi surgindo nas filmagens?
É bonita esta colocação talvez passe a usá-la a partir de agora, toda vez que falar sobre o filme (risos). Agora, falando sério, faço um pouco de tudo nos meus filmes, sou roteirista, diretor, ator. Quando escrevo, penso também nas opções de filmagem e de interpretação, e quando escrevo um filme que sei que as três coisas vão andar juntas, procuro tirar o máximo de vantagens. Esta delicadeza talvez venha do fato de que era um tema que me tocava profundamente, como pessoa. É raro que eu sinta uma história assim tão intensamente. E depois, tanto como realizador e como pessoa, não queria ter uma atitude sádica com o espectador.
Depois da morte do filho, Giovanni quer voltar atrás, recusa o destino. O senhor acredita no destino?
Não no destino, mas acaso, que desempenha um papel fundamental nas nossas existências, tanto nos acontecimentos felizes quanto nos infelizes.
A propósito, o que significa para o senhor a volta de Berlusconi ao poder na Itália? Pode haver alguma repercussão para o cinema italiano?
O cinema italiano é menos importante que a sociedade italiana. O que é triste e ridículo é que quando estive em Cannes em 94 para apresentar Caro Diário, Berlusconi acabava de ganhar a eleição e já mandava na Itália. Sete anos depois volto a Cannes e a situação é a mesma. Um presidente pode ter três tevês, inúmeros jornais e negócios em praticamente todas as áreas. O conflito de interesses é sempre o mesmo. A Itália não se emenda...


