Um filme só para encher os olhos
Envolvido na polêmica recente do boicote chinês - o filme está proibido em toda a China - e na lista de espera da cerimônia do Oscar, para o qual teve várias indicações, ''Memórias de Uma Gueixa' chega hoje ao circuito brasileiro (confira a programação de cinema na página 2). É um trabalho bonito de se ver, mas pouco mais que isto.
Superprodução americana, aliás um dos raros blockbusters a disputar estatuetas num ano marcado pela invulgar autonomia dos produtos independentes e bem pensantes, ''Memórias'' é a adaptação do best-seller de Arthur Golden já traduzido em mais de 30 idiomas. O projeto cinematográfico ficou parado por muito tempo, e pouco ou nada se sabia sobre a anunciada participação de Steven Spielberg - dizem que os predestinados sabem das coisas, o que explicaria a opção dele apenas pela produção, optando por dirigir ''Munique'', em que, como se sabe, se deu muito bem. Em seu lugar, avalizado pelos prêmios de ''Chicago'', entrou Rob Marshall.
E por que o imbróglio com a China? A polêmica surgiu com a escolha de uma atriz chinesa para encarnar uma jovem japonesa. Como ambos os países têm arrepiantes diferenças históricas, o desagrado não se fez esperar. O curioso é que somente a atriz Ziyi Zhang (O Clã das Adagas Voadoras) foi o centro das desavenças, sem que se tenha feito menção à participação de outras atrizes não japonesas como Gong Li (Lanternas Vermelhas) e Michele Yeoh (O Tigre e o Dragão). Este ''descuido'' acabou diluindo as fronteiras do escândalo e a intromissão de forte marketing.
Rob Marshall, o encarregado de formatar esta fábula a princípio japonesa, mas sujeita aos padrões da indústria de Hollywood, entregou um filme com quase duas horas e meia, uma adaptação encomendada para ficar parecida com a narrativa e o tempo dilatados dos grandes mestres do cinema nipônico. Mas o que ele conseguiu afinal foi uma frágil cópia, incapaz de sustentar suas pretensões. Um filme até brilhante como espetáculo, desde que apartado de um roteiro que, apesar do tempo disponível, passa por cima das informações culturais que de fato importam.
''Memória de Uma Gueixa'' tenta ser um afresco do Japão tradicional e militarista dos anos 1930 e primeira metade dos 40, com um epílogo que transcorre durante a ocupação americana. É a história de Chiyo, a garotinha que é vendida pelos pais para uma casa de gueixas, afim de que aprenda o ofício. Que, embora de difícil entendimento fora do Japão, não é o de prostituta e nem de esposa, mas de uma quase artista das boas maneiras, alguém para acompanhar e entreter, com fina conversa, os clientes ricos.
Hostilizada por ciúmes por Hatsumomo (Gong Li), a estrela da casa , e com o tempo rebatizada como Sayuri (Zhang Ziyi), a garota poderá ser feliz ajudada por um empresário que ama em segredo (Ken Watanabe) e por outra gueixa, Mameha (Michele Yeoh), rival de Hatsumomo. Com a vitória americana e a posterior ocupação, Sayuri vai se envolver de corpo e alma no processo de reconstrução do país.
Embora não carente de certos truques emocionais, a história romântica latente demora a se resolver. E se a debilidade do filme decorre do roteiro mal arrumado, limitado na observação do universo multifacetado e fascinante das gueixas, as virtudes evidentes são o apaixonante desenho de produção/direção de arte, por si só de encher os olhos, e a trindade de especiarias orientais, Zhang, Gong e Michele. Podiam até nem pronunciar uma palavra (e ainda falam em inglês). A simples presença é outro forte apelo ao espectador curioso nestes tempos de Oscar.(C.E.L.J.)





