Um filme para o Filo
No início de 2000, faltando dois ou três meses para a temporada anual do Festival Internacional de Londrina, Nitis Jacon e eu, há muitos anos companheiros de Casa de Cultura da UEL, conversamos algumas vezes sobre a possibilidade de trazer a Londrina o pessoal dinamarquês do Dogma-95, mais especificamente Lars von Trier e Thomas Vinterberg, o diretor de Festa em Família. Dois motivos impediram que a mostra daquele ano recebesse pela primeira vez o cinema em sua arejada programação anual. Apertos orçamentários e a impossibilidade de trazer Lars von Trier ao Brasil, já de malas prontas para arrebatar em maio a Palma de Ouro por Dançando no Escuro. Além disso, teríamos outro problema a resolver, este bem mais prosaico: convencê-lo a entrar num avião e ali ficar por 11 horas. Fóbico irrecuperável, este ano mais uma vez chegou a Cannes de trem...
De qualquer maneira, Dogville, com distribuição brasileira já garantida, pode ser motivo forte o bastante para o início desta colaboração, Filo-2004. Pois além da briga com os coleguinhas de imprensa americanos, outra fonte de inspiração para o estilo nada convencional do filme foi o teatro, em particular o de Bertold Brecht. Uma canção escrita pelo dramaturgo alemão em 1930 sobre o tema da vingança, entre outras idéias, também serviu de motivação para o roteiro. A cidade de Dogville foi construída em estúdio, sobre um platô, na verdade um palco. O estilo teatral brechtiano, simples e despojado, foi a opção desejada e materializada por von Trier, que acabou criando o seu próprio círculo de giz dinamarquês. A pequena cidade foi toda inventada, está posta sobre o palco, com inscrições em branco sobre chão negro, escritas e desenhadas demarcando as casas, as ruas e quem mora onde.
Von Trier confessou que também recorreu ao teatro que a televisão fazia nos anos 1970, em particular Nicholas Nickleby, pela Royal Shakespeare Company. Segundo explicou na coletiva, era extremamente estilizado, com a participação do público. Quando revejo isso, percebo que funciona ainda muito bem. Era às vezes meio abstrato. Não sou muito admirador do teatro no teatro, mas o teatro na televisão ou no cinema, é sempre alguma coisa que gosto muito de ver. (C.E.L.J.)
O jornalista Carlos Eduardo Lourenço Jorge está em Cannes a convite do festival e com apoio da Sercomtel.





