UM FILME PARA MENORES
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de junho de 2001
Mônica Rodrigues da Costa Agência Folha 
Shrek já é um conto de fadas clássico, de tão exato em suas características estruturais. Em primeiro lugar, o filme que está em cartaz em várias salas de todo o País (ver programação de cinema na página 6) fala perfeitamente às emoções de crianças a partir dos quatro anos, que já conhecem de cor as histórias maravilhosas dos irmãos Grimm e de Charles Perrault -Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve, Cinderela, entre outras -, além de outros clássicos como Pinóquio (Carlo Collodi) e Os Três Porquinhos (Joseph Jacobs).
Em segundo lugar, o desenvolvimento do enredo segue rigorosamente a construção dos contos de fada. Há um herói (Shrek) e uma heroína (a princesa Fiona) que precisam superar obstáculos e que sofrem metamorfoses - ele se transforma de mau em bom - para alcançar o final feliz.
A história de Shrek tem uma aparência paradoxal, pois o bem é praticado por um personagem originalmente mau, famoso por devorar crianças com sua fome infinita. Trata-se do ogro Shrek, que odeia a convivência com outras criaturas e prefere se isolar num pântano só dele.
Só que Shrek perde o sossego porque outros personagens dos contos clássicos invadem seu paraíso. Então o espectador se vê diante dos seus velhos conhecidos da hora de dormir. O Burro Falante, Branca de Neve, os porquinhos, o lobo e Pinóquio refugiam-se no pântano para se livrar do malvado Lorde Farquaad, cujo sonho é se tornar um príncipe através de um casamento real.
Shrek entra em ação para resolver o problema do lorde e, em troca, retomar a posse de suas terras. É o que Farquaad promete ao ogro, desde que Shrek mate o dragão e traga a princesa Fiona para seu castelo. O caminho é longo até o desenlace, em cenas belíssimas de desenho animado, com lutas fantásticas e cenários que se aproximam da melhor pintura realista em cada tom de pele, em cada gesto, em cada planta retratada.
Porque dominam o repertório de Shrek, as crianças são capazes de reconhecer todas as peripécias e naturalmente torcem pelos heróis e se identificam com eles, não importa se os protagonistas são deslocados de suas posições originais e assumem os papéis dos heróis que praticam o bem.
Além disso, Shrek tem o dom da exatidão metalinguística. A princesa Fiona é valente e ágil na luta como a heroína de O Tigre e o Dragão. Ela é escolhida pelo feioso lorde mediante uma consulta ao espelho da Branca de Neve, numa espécie de agência de matrimônio em um videogame.
O Burro atua como a consciência do Grilo Falante ou da fada Sininho. O próprio Shrek é ogro e Fera e é capaz de mudar de atitude por influência do amor de sua Bela. Será mesmo bela? Essa é a moral da história.


