Com 13 indicações ao Oscar - duas a mais que o favorito ‘‘O Resgate do Soldado Ryan’’ - a comédia romântica ‘‘Shakespeare Apaixonado’’ chega aos cinemas brasileiros depois de uma carreira de sucesso no exterior. Na verdade, o filme chega às telas com seis anos de atraso. Os planos para sua produção começaram em 1993, quando foram convidados Julia Roberts e Daniel Day-Lewis para os papéis principais. Mas o projeto naufragou antes de sair do papel. Ao ser retomado, o roteiro de Marc Norman e Tom Stoppard foi reescrito, saindo do papel a um custo de US$ 25 milhões, quantia considerada média para os padrões hollywoodianos.
Para esta segunda versão, Winona Ryder foi a primeira a ser sondada para interpretar a heroína, mas como a atriz ignorou o convite, o roteiro acabou indo parar nas mãos de Gwyneth Paltrow. Ela não pensou duas vezes em aceitar o papel que lhe rendeu o Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar. Winona Ryder deve estar se roendo de raiva. Tarde demais. ‘‘Shakespeare Apaixonado’’ é ótimo e merece as 13 indicações que lhe foram conferidas pela Academia. O filme narra a trajetória do jovem William Shakespeare, interpretado por Joseph Fiennes que, depois desse trabalho, deixará de ser lembrado apenas como o irmão mais novo de Ralph Fiennes.
Pressionado para escrever uma comédia - gênero teatral mais valorizado durante o reinado de Elizabeth I da Inglaterra - Shakespeare sofre de um bloqueio criativo, não conseguindo produzir nada de interessante. Mas a vida do dramaturgo sofre uma reviravolta quando ele conhece lady Viola (Gwyneth Paltrow), uma jovem que pertence à aristocracia inglesa. É nesse amor impossível que William encontra inspiração para escrever a tragédia ‘‘Romeu e Julieta’’, a mais famosa de suas 38 obras.
No filme, existe pouco do escritor que lutou contra o regime draconiano da rainha Elizabeth I, fazendo do palco uma pequena ilha de mistérios e dramas intensos como ‘‘Hamlet’’ e ‘‘Macbeth’’. Como quase nada se sabe sobre a vida pessoal do dramaturgo, os roteiristas se sentiram livres para fazer especulações, misturando fatos reais com altas doses de ficção. Não existe nada documentado sobre a vida amorosa de Shakespeare, a não ser que ele se casou aos 18 anos com uma mulher bem mais velha e teve três filhos.
A comédia dirigida por John Madden, responsável pelo excelente ‘‘Sua Majestade, Mrs. Brown’’, é movida a poesia. Mostra Shakespeare como um jovem aventureiro, ambicioso e confuso, que tenta se afirmar como autor no meio teatral da era elizabetana. No começo, o filme é um pouco travado, mas depois deslancha, fazendo com que o telespectador saia do cinema com a alma lavada. A direção de arte é requintada. Recria com fidelidade a sociedade elizabetana com seus palácios suntuosos se contrapondo à sujeira que se acumulava nas ruas de Londres. A fotografia é belíssima, os figurinos deslumbrantes e a trilha sonora é tocante. Mas é no roteiro e no elenco que ‘‘Shakespeare Apaixonado’’ tem seu ponto forte.
Mesmo não sendo autêntico, o enredo esbanja poesia, inteligência e espiritualidade, misturando diálogos do roteiro com trechos de ‘‘Romeu e Julieta’’. O mesmo acontece com a montagem, que mistura cenas do filme com as da peça encenada pela trupe do Teatro Rose, que na época apresentava as obras do escritor. O elenco de apoio rouba várias cenas. Judi Dench (indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante), está soberba como a rainha Elizabeth I; Geoffrey Rush, também indicado ao Oscar de Melhor Coadjuvante, faz o patrocinador que pressiona Shakespeare a terminar sua obra. Resguardadas as licenças poéticas, o filme oferece ao telespectador um painel apaixonante de uma época na qual o teatro era o mais importante entretenimento popular.
A grande sacada dos roteiristas foi não mostrar o dramaturgo como um gênio intocável, recluso ou intelectual, mas como um jovem comum com o qual a platéia se identifica logo de início. Joseph Fiennes constrói um Shakespeare que faz análise, usa brinco e, ao se apaixonar, fica tão vulnerável quanto qualquer outro ser humano. Com certeza, na noite do Oscar, a disputa ficará entre o patriotismo exacerbado de ‘‘O Resgate do Soldado Ryan’’ e a poesia encantadora de ‘‘Shakespeare Apaixonado’’. Que vença o amor, não a guerra.ReproduçãoGwyneth Paltrow e Joseph Fiennes são protagonistas do filme que traz de volta o lirismo de William ShakespeareCelso Mattos

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