Um filme grave, uma atriz prodigiosa
Há algumas semanas, ao abrir o texto sobre 'O Menino do Pijama Listrado', observei como está cada vez mais difícil para o cinema ser original e interessante quando o assunto é holocausto. Quando a inteligência, porém, trabalha a favor da novidade, os resultados positivos aparecem. Não que ''O Leitor'', em lançamento hoje na cidade, seja manipulado pelo tema. Mas ele está lá de maneira insidiosa, assombrando os personagens e instigando a imaginação ao influenciar sentimentos como a crueldade humana, a incompreensão e a inclemência filtrados através de uma estranha relação.
Onde começa e onde termina a culpa individual ? E a coletiva ? Como é possível estabelecer a responsabilidade quando falamos de fatos terríveis que somente foram consumados com a colaboração calada de milhares de indivíduos ? Que atitude tomaríamos ao descobrir que alguém muito importante para nós participou de um crime hediondo ? Morreria imediatamente qualquer afeto, qualquer carinho se anularia ou a pessoa se veria de tal modo atônita entre forças opostas que literalmente a deixariam imóvel e anulada ?
Ambientado na Alemanha no pós guerra, ''O Leitor'' começa quando um adolescente de 15 anos, Michael (David Kross), passa mal na rua quando volta da escola e é socorrido por Hanna (Kate Winslet), mulher com o dobro de sua idade. O garoto decide agradecer pessoalmente. É quando acontece o romance proibido entre os dois, marcado por intensas, violentas e inesquecíveis relações sexuais. E fortalecido pelos muitos livros que Michael lê para a analfabeta Hanna. Mas um belo dia ela desaparece. Anos mais tarde, estudante de Direito, ele assiste a um julgamento de crimes nazistas onde a acusada é uma tal Hanna Schmitz, que parece esconder segredos inconfessáveis.
O foco central é a relação escondida entre Hanna e Michael, o jogo sadomasoquista de intercâmbio de culpas. O sentimento entre ambos é a parábola de um povo envergonhado por não ter visto, ouvido ou falado quando podia fazê-lo.
Pode-se levantar contra ''O Leitor'' uma certa frieza na construção, um certo ordenamento prévio a caminho da artificialidade, um certo calculismo de coisa muito cerebral. Mas é só aparência. O diretor Stephen Daldry trabalha o roteiro de David Hare (baseado no best seller de Bernhard Schlink) de maneira tal que está sempre estimulando o espectador a ir mais fundo na complexidade dos temas e dos personagens.
De certa forma co-autora deste filme, Kate Winslet constrói uma Hanna tão fascinante quanto contraditória. Uma mulher solitária, introspectiva, orgulhosa, completamente amoral, incapaz de discernir o bem do mal, o que torna impossível que se sinta culpada de qualquer de seus atos. Deveria resultar em personagem desprezível, mas Winslet foi capaz de conferir a Hanna o quê de humanidade que ela precisava. Até conseguir, na parte final do filme, o que parecia impossível: a empatia com o público. Apesar de seriamente comprometida pelo departamento de maquiagem, que quase põe tudo a perder...





