Um filme geneticamente alterado
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Especial para a Folha2
É cíclico. De tempos em tempos, Hollywood solta seus demônios submarinos. No caso deste Deep Blue Sea (Do Fundo do Mar) - lírico, belíssimo título em sua sonoridade original, e no entanto à deriva - quem sai das profundezas são velhos, respeitados, admiráveis conhecidos. No caso, surgem ainda mais temidos porque superespertos, inteligentes mesmo, à custa de modificações genéticas processadas em laboratório. E o que parece mais aterrorizante, agora direcionando suas aptidões predatórias em busca de retaliação.
Quatro grandes tubarões com cérebros aumentados por experimentos genéticos atormentam a sobrevivência de um estropiado grupo de personagens familiarmente ecléticos em desesperada busca da saída de um semidestruído centro de pesquisas no fundo do mar. Com este argumento, o diretor Renny Harlin poderia trilhar o caminho da aventura simples e competente, apenas se cercando dos ingredientes necessários - adequado sentido de atmosfera, suspense na medida, elenco competente e equilibradas doses de ação. Precedente exemplar havia, e da melhor qualidade. Com muito menos recursos, Steven Spielberg, então com 26 anos, realizou em 1974 uma inesquecível aventura até com um inesperado tempero metafísico. Diante de Do Fundo do mar, o Tubarão de Spielberg é intocável.
O problema maior do filme é a indefinição de rumos, a indecisão na hora de assumir o que diversas vezes é posto como múltiplas opções. Não se consuma como esperto filme B, embora exista uma vocação latente; não é uma sátira ao mundo da ciência ou ao mecenatocientífico e muito menos uma paródia do gênero, ainda que flerte em ambas as direções. Também não se resolve enquanto disaster movie, thriller de horror ou filme-denúncia de práticas científicas ilegais. Chega a ser risível, cientistas obcecados com a idéia da cura do Mal de Alzheimer através de proteína extraída do córtex do tubarão. Sobra, então, a habilidade de Harlin em lidar com a ação, como já demonstrou em Risco Total, A Ilha da Garganta Cortada (seu melhor, mais autêntico filme) e em Despertar de um Pesadelo. O resto fica por conta das quatorze empresas responsáveis pelos efeitos especiais que criaram e manobraram os tubarões. Como informação de vital importância inútil, é bom saber que alguns dos tubarões animatronic podiam se locomover em até 60 quilômetros por hora! Quanto ao elenco, o emergente Thomas Jane deve ser transformado em breve no sex symbol de plantão. Já Samuel L. Jackson é o milionário transformado num piscar de olhos em benfeitor da humanidade e em outro em suculenta iguaria de tubarão. Fica a impressão de que um compromisso urgentíssimo surgiu de última hora, já que o personagem começava a tomar forma e ganhar significado na trama. E a produção optou por solução dramática e surpreendente. Do Fundo do Mar é um filme sobre tubarões imensos comendo gente. É exatamente isso o que o espectador recebe quando compra o ingresso. E mais nada.





