UM FILME EM CRISE DE IDENTIDADE
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 18 de outubro de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br. De Londrina 
A melhor interpretação de Jennifer Lopez , J. Lo para os íntimos, foi extraída por Steven Soderbergh em ''Irresistível Paixão'': uma agente do FBI envolvida até a medula com o criminoso crônico George Clooney. Infelizmente o retorno de Lopez aos quadros da polícia em ''Olhar de Anjo'' (veja a programação de cinema na página 5) não oferece ao público a mesma recompensa. A habitual vitalidade e o glamour desaparecem neste melodrama moribundo que começa até intrigante, antes de sucumbir totalmente na banalidade.
Um acidente de carro, e a ação se transfere para um ano mais tarde. Enquanto persegue um suspeito durante incursão noturna pela ruas perigosas de Chicago, a policial durona Sharon Pogue (Lopez) quase cai numa armadilha fatal. Quem salva a moça é um misterioso estranho, Catch Lambert (Jim Caviezel), que consegue desarmar o bandido. Há três hipóteses para explicar o ocorrido: golpe de sorte, artimanha do destino ou apenas um misterioso cidadão solitário, uma alma quase penada que passava casualmente pelo local na hora exata, e não teve medo de se envolver. Tudo é possível, mas de alguma forma Catch e Sharon se encontraram uma vez antes. Como nesses casos o romance é inevitável, ao longo da relação os dois vão descobrir as respectivas verdades e também lidar com segredos do passado. Dele, principalmente, envolvendo o tal acidente do prólogo. E o espectador passa a conviver com mais uma hipótese: seria ou não, o enigmático salvador o anjo da guarda da policial?
Embora a Warner Bros. tenha tentado vender o filme como ''thriller'', não há ilusões. ''Angel Eyes'' se esforça para ser um drama romântico, mas tolice e manipulação desmedidas acabam corroendo o que poderia ser uma curiosa fábula sobre o desejo feminino de criar o homem ideal - de resto utopia a desafiar os séculos. O roteiro prefere trabalhar em clima de nebulosidade, oferecendo a eventualidade de ecos localizados em algum ponto difuso entre ''O Sexto Sentido'' e ''A Cidade dos Anjos''. Esta direção vagamente sobrenatural se (des)equilibra a partir da generosa beatitude e da espectral onipresença de Catch, que nunca dirige um carro ou nunca fecha a porta atrás dele. Mas as tais verdades se mostram bem terrenas, pedestres mesmo, nesta embolada de suspense, drama místico, comédia romântica e love story,
O diretor mexicano (radicado em Hollywood) Luis Mandoki, cuja última façanha foi o medíocre ''Uma Carta de Amor'', aprendeu todas as lições da cartilha dos lugares comuns, principalmente como disparar os mecanismos da emoção mais simplista - medo, solidão, tristeza, perdão e aceitação viram artigos baratos para consumo superficial. Quem transita pelo filme é Sonia Braga, como a mãe da policial. Para quem foi há um quarto de século a gloriosa Dona Flor, uma cinquentona hispânica é muito pouco, quase nada, um preço muito alto para não dar o braço a torcer.


