Um filme da guerra fria
O que aconteceria se, em futuro remoto, macacos déspotas e militaristas voltassem a ser donos do mundo, e os últimos exemplares da raça humana fossem caçados como feras, mantidos em jaulas, empalhados em museu arqueológico ou reduzidos à condição de cobaias de experiências cirúrgicas? Esta hipótese, assustadoramente fictícia, chegou aos cinemas da Terra em 1968, coincidindo com o 2001 de Kubrick, outra densa especulação sobre o destino do homem, e em meio a ameaças mútuas entre os senhores da guerra fria. Esta inesperada reviralvolta na cadeia evolutiva, saída das páginas do francês Pierre Boulle (também autor de A Ponte do Rio Kwai), afinal significaria um retrocesso ou um salto à frente, rumo à perfeição?
Com bom humor sardônico e ironia finíssima, sem entretanto perder de vista o sentido da aventura, o já falecido diretor Franklin J. Schaffner (diretor dos ótimos O Senhor da Guerra e Patton, Rebelde ou Herói) realizou um dos grandes títulos da seleta galeria de clássicos de ficção científica. Ainda que por um bom tempo maldito em razão da baixa qualidade de suas quatro sequelas e da longa série televisiva, este filme interpretado por Charlton Heston (em inspirado momento da longa carreira) continua ainda hoje marco e referência não apenas para o gênero, mas para o melhor cinema hollywoodiano.
Os roteiristas Michael Wilson e Rod Serling (criador de Twilight Zone/Além da Imaginação, outro hit de cabeceira dos aficcionados) transformaram o material meio solene de Boulle numa espécie de Viagem de Gulliver recheada de ironias políticas, blasfêmias e inteligentes tiradas sociológicas. O astronauta aqui é George Taylor, às voltas com hordas de escravos humanos prisioneiros de exército de gorilas sob o governo legal de orangotangos, os supremos legisladores e juízes, assessorados pelos sábios chimpanzés.
Além de reservar um final-surpresa muito imitado mas nunca igualado em originalidade e impacto da imagem emblemática de um terrível apocalipse, a versão 68 de O Planeta dos Macacos expõe com simplicidade, sem complicações esotéricas, questões delicadas como o racismo e a desigualdade de classes proporcionados pelo medo ao desconhecido, ao diferente. A sociedade americana do final dos anos 60 recebe uma dura crítica em formato de paródia futurista. E o destino da civilização humana poucas vezes teve tratamento tão mordaz. E merecido.(C.E.L.J.)





