Um filme chamado desejo
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sábado, 18 de janeiro de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha 2 
ReproduçãoAntonio Banderas e Eusebio Poncelo: relação tórrida em filme dirigido por AlmodóvarA febre Antonio Banderas, por conta de um bem orquestrado merchandising hollywoodiano em cima das redivivas virtudes emblemáticas do latin lover, vem levando uma ducha de água gelada mundo afora. Com a intenção declarada de obter lucro fácil, espertos de última hora compraram e estão distribuindo no mercado internacional um dos filmes da fase espanhola da carreira do ator. A Lei do Desejo, que acaba de estrear no Brasil (veja programação de filmes na página 3), não está sendo vendido por ser um dos melhores trabalhos do diretor Pedro Almodóvar, mas por trazer Antonio Banderas vivendo um homossexual possessivo e contraditório. E por causa das tórridas cenas entre Banderas e Eusebio Poncelo, o ator anda possuído pela síndrome de Xuxa, isto é, vem promovendo uma caça às bruxas que ousaram vulgarizar internacionalmente o que até então tinha circulação discreta, na Espanha e cinematecas das imediações. Para quem não se lembra, em outros tempos Xuxa trabalhou em cinema, não só com os Trapalhões mas também num filme de Walter Hugo Khouri, Amor Estranho Amor, onde, além de desfilar frontalmente nua, iniciava um gentil garotinho nas artes e manhas de originais pecados. Não se sabe se a cruzada de Banderas vai ter braços tão longos para o rastreamento de cópias em simultânea circulação mundial, mas por via das dúvidas é bom se prevenir e conhecer este ótimo trabalho de um Almodóvar ainda não muito lapidado (e contido) pelas regras de um exigente e quase sempre castrador mercado internacional.
Banderas,
arrependido,
quer rastrear as
cópias do filme
Gay desperadoNa filmografia de onze títulos de Pedro Almodóvar, iniciada em 1980, A Lei do Desejo situa-se exatamente na metade. Realizado em 1986, o filme poderia ser definido como um exuberante bolerão kitsch e tragicômico, se este rótulo não empobrecesse a narrativa e não diminuísse seu impacto, mesmo após uma década de sua realização.
Antonio ama Pablo que ama Juan que não ama Pablo que tem uma irmã Tina que é transsexual. Pablo acaba aceitando o amor doentio de Antonio; Juan vai embora mas pode acabar mal; Tina tem guardados terríveis segredos familiares. Nesta ronda de paixões abrasivas e terminais, em se tratando de Almodóvar, radical e irreverente não são adjetivos mas funcionam substantivamente. Neste La Ley del Deseo isto fica evidente à medida em que aquilo que num momento parece transgressão, logo adiante vai parecer normal. O triângulo amoroso composto por três homens é inquestionavelmente radical mas em nenhum momento busca o escândalo. O que normatiza e normaliza esta situação é o controle e o policiamento das segundas intenções. Os personagens acabam por se mover, agir, amar e se entregar de acordo com as transparências da lei do desejo proposta por Almodóvar. Mas não sem antes passarem por uma espécie de corredor polonês onde são castigados por causa da simulação. Simular a realidade, e por consequência sofrer e causar sofrimento: esta parece a maior preocupação existencial do cineasta, uma constante mais ou menos presente em sua dezena de filmes.
Com um olhar despudorado, Almodóvar devassa seus cenários e figurinos de cores sem meios tons, agressivas. Seus atores, da mesma forma, se entregam de alma ao corpo e esgotam todas as possibilidades do melodrama físico, visceral como gênero e também como paródia. Banderas, vivendo o gay desperado, não tem porque se irritar, se esconder ou se desculpar. Hollywood ainda deve a ele um papel que possa estar à altura de qualquer de suas outras colaborações com Almodóvar - Matador, Ata-me e Mulheres à Beira...


