O que acontece a um diretor quando seu segundo filme é uma obra-prima? Invariavelmente é complicado. Bob Rafelson tem lugar cativo nas antologias por causa de ‘‘Cada Um Vive como Quer’’, trabalho que, se não é obra-prima, é momento de autêntica vanguarda cinematográfica e merecido cult de 1970 que resiste a qualquer comparação com muita coisa relevante feita naquela década notável. A história de um pesquisador de petróleo na Califórnia e suas complexas relações familiares funciona hoje como no dia da estréia, há 27 anos. Foi a segunda realização de Rafelson (a primeira foi ‘‘Head’’, com o grupo The Monkees), e confirmou a promessa Jack Nicholson lançado um ano antes no papel de um advogado bêbado e anárquico em ‘‘Sem Destino’’. E a partir daí Rafelson não conseguiu manter o mesmo elevado padrão de qualidade (leia-se inquietação e originalidade), ainda que seus outros filmes sejam bons - embora merecessem ser melhores, com uma desastrosa exceção para ‘‘O Cão de Guarda’’, de 92, também com o parceiro e amigo Jack Nicholson. Seu mais recente esforço, ‘‘Sangue e Vinho’’, é o que de melhor Bob Rafelson realizou em cerca de uma década.
Trilogia familiar Com todas as honras herdeiro direto do filme noir , ‘‘Blood and Wine’’ é um thriller ambientado em Miami sobre um quase falido negociante de vinhos (Nicholson). Com a ajuda da amante (Jennifer Lopez) e de um parceiro de pôquer e vigarista (Michael Caine), ele tenta sair do buraco roubando o colar de diamantes de um cliente. Tudo corre bem até que sua mulher (Judy Davis) e o enteado (Stephen Dorff ) involuntariamente frustram o plano e fogem com o produto do roubo. Traições, esperanças aniquiladas, trapaças, tensão sexual, decepções, violência e muito sangue derramado: sólido tour de force de estilo, ‘‘Sangue e Vinho’’ resultou num filme enganosamente simples mas desde já candidato a um dos mais complexos dos últimos tempos. O que seria mais um movimentado corre-corre entre ladrões de jóias serve de pretexto para Rafelson colocar na mesa outro tipo de jogo. Aquele que disseca a relação entre amigos, o conflito edipiano entre filhos e pais, prolongado e transferido para a competição sexista por uma mesma mulher. E quem olhar com lente de aumento encontrará uma espécie de conto moral sobre a América contemporânea. Não foi à toa que Rafelson filmou ‘‘Sangue e Vinho’’ quase inteiramente em close-ups , buscando no fundo do olho dos personagens os sinais de falência das emoções não contaminadas.
‘‘Sangue e Vinho’’ foi escrito para Jack Nicholson. Depois de ‘‘Cada um Vive como Quer’’, em 70, veio ‘‘O Dia dos Loucos’’(The King of Marvin Gardens, 72). No primeiro, ele era o filho, no segundo o irmão. Naquela época, ator e diretor conversaram sobre uma história no futuro em que Nicholson pudesse ser o pai. O tempo chegou afinal, e ‘‘Sangue e Vinho’’ fecha a trilogia proposta por Rafelson sobre a disfunção das engrenagens familiares. Uma vez mais a boa direção de atores, especialidade do diretor, obtém interpretações com insuspeitadas doses de malícia, com a dupla Nicholson-Caine reinando absoluta.

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