Um festival sem favoritos
Jerry Lewis participa hoje do encerramento do Festival de Veneza. E ninguém arrisca um palpite para a premiação
France PresseJerry Lewis recebe em Veneza o Leão de Ouro pelo conjunto de sua carreira
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Veneza para a Folha2
Definitivo: a Itália não repete a performance do ano passado, quando Cosi Ridevano ficou com o Leão de Ouro de melhor filme. Pior: é a mais indefensável representação italiana em concurso em muitos anos, uma coleção de risíveis equívocos - situação ainda mais complicada quando se descobre que nas mostras paralelas, não competitivas, havia filmes da azzurra muito mais eficazes - Libero Burro, estréia de Sergio Castellitto como diretor, e Il Dolce Rumore della Vitta, de Giuseppe Bertolucci. Quanto à bolsa de apostas, ninguém arrisca uma lira, e tudo pode acontecer. Hoje à noite, Ana Galiena repete o papel de mestre-de-cerimônias e conduz o encerramento. Durante o anúncio dos ganhadores, Martin Scorsese entrega a Jerry Lewis o Leão de Ouro dedicada à carreira do comediante. Depois da premiação será exibido The Bell Boy, filme que Lewis dirigiu e interpretou em 1960.
Melancólica, para dizer o mínimo, a última jornada da seção competitiva. Resumindo: um porre, uma longa bad trip proporcionada por Le Vent de la Nuit, francês de Philippe Garrel, e Jesuss Son, americano de Alison Maclean. Diversos no tratamento mas muito próximos no tema - personagens inquietos em busca da redenção. Afinal encontrada no doloroso calvário de Jesuss Son, mas aridamente frustrada na experiência existencial de Le Vent de la Nuit. Não se pode negar ousadia e experimentação à diretora neo-zelandesa Alison Maclean ao conduzir seu personagem Fuckhead, no início dos anos 70, a uma desordenada rota de autodestruição através da droga e do álcool. Philippe Garrel, por seu turno, faz da excessiva independência do espírito (dele, evidentemente) um martírio difícil de suportar. Nem a presença de Catherine Deneuve ameniza a desertificação crescente, que passeia pela nostalgia dos sobreviventes de maio de 68 ao hui clos do casamento anos 90. Confirmando: um porre, que a organização do festival houve por mal paginar para o último dia, com esgotamento físico e mental em franco andamento. Se diluídos durante a semana, o impacto negativo seria quem sabe assimilável.
Outra imensa decepção, muito pela expectativa artificial criada pela Fox com a cumplicidade do festival, sempre de olho na mídia, é o filme de David Fincher ,Fight Club. Mais parecendo work in progress, é uma violentíssima, nauseante fábula misógina, hiperbólica e fascistóide sobre a decadência de valores do homem americano no apagar do milênio. Em vão os atores Brad Pitt, Edward Norton, Helena Bonham Carter e o diretor Fincher fizeram malabarismos discursivos para defender Fight Club durante a coletiva. E sem conhecer muito bem o rabo de foguete comercial que têm nas mãos - agora já sabem, mas é tarde -, os assessores da Fox fizeram de tudo durante a semana para dificultar as entrevistas para a imprensa estrangeira, selecionando apenas dois veículos por país, e com prioridade para tevês, ainda assim com discriminação - o Telecine ficou com Pitt e Norton porque exibe Fox, e a HBO-Brasil ficou com Fincher e Helena Bonham Carter.





