Um festival de clássicos
Um festival de clássicos
O Cine Ouro Verde, em Londrina, exibe sete filmes inesquecíveis produzidos pela Warner Brothers
ReproduçãoJames Dean em Juventude Transviada: filme de Nicholas Ray pode ser visto hoje em LondrinaCarlos Eduardo Lourenço Jorge
Especial para a Folha 2
Era uma vez em Hollywood, cerca de 1927. Quatro irmãos exibidores e pequenos produtores desde 1923 - Jack, Albert, Harry e Sam - resolvem apostar todas as fichas num negócio de alto risco e nenhuma garantia: o som acoplado às imagens. O sucesso assombroso do primeiro filme inteiramente falado, O Cantor de Jazz, e o bom dinheiro consequente passam a incrementar a linha de produção dos Warner Brothers. O resto é história, com direito a tudo o que o estúdio gerou nos seus 75 anos de vida: poder e glória, grandeza e decadência. O legado mais consistente não são as inconfidências ou as maledicências ou os escândalos. O melhor desta festa de aniversário é a opulenta galeria de imagens que sobrevive a tudo, são os muitos momentos de mágica ilusão que não saem da memória, é agora a certeza de que ao entrar pela primeira vez num cinema as pessoas teriam, no encontro às escuras, o início de uma bela e duradoura amizade...
ReproduçãoBlade Runner: mise-en-scene noir mostra Los Angeles decadenteO que resgatar entre milhares de produções ao longo de quase oito décadas? Que títulos privilegiar, entre tantos? Os critérios que produziram esta auto-homenagem que agora chega a Londrina depois de passar pelas principais capitais do País podem - e devem - ser questionadas. Afinal, nenhum Kubrick se apresenta, entre todos os que o estúdio financiou para o mestre morto recentemente. Mas apesar da ausência irreparável, ninguém vai ficar imune a este provocante mini-festival de obras carregadas de muitos significados - míticos, estéticos, sociais, emblemáticos e o que mais se queira agregar a estes sete títulos que, com inteira justiça e rara adequação semântica, merecem o desgastado rótulo de clássicos.
Por ordem de entrada em cena. Juventude Transviada, que pode ser visto somente hoje, é o veículo por excelência para uma apresentação em grande estilo de James Dean, um dos maiores fenômenos gerados pela mitologia hollywoodiana. Mas o belo e marcante filme que Nicholas Ray realizou em 1955, embora deva muito à overdose de carisma do ator, continua a ser um poderoso retrato da rebeldia juvenil daquele período. Rebel Without a Cause foi durante muitos anos alimentado por revelações de bastidores, como a insistência da imprensa em acusar Dean de imitar Marlon Brando em O Selvagem, realizado dois anos antes. A registrar a morte trágica do trio central de atores: Dean em acidente automobilístico, ainda em 55; Sal Mineo, esfaqueado em 1976, e Natalie Wood, em 1981, afogada em circunstâncias misteriosas.
Neste momento completando 30 anos, Meu Ódio Será Sua Herança está sendo relançado em vídeo nos Estados Unidos numa reedição, segundo consta, com material descartado na mutilada edição de lançamento. Este melancólico western outonal é obra-prima sobre um bando de anacrônicos foras-da-lei na virada do século, um bando selvagem que o especialista Sam Peckinpah retratou no crepúsculo de suas carreiras de ladrões e assassinos. Elegíaco, inovador na proposta de uma estesia da violência, com um elenco afiadíssimo ,The Wild Bunch é um dos grandes momentos do gênero.
ReproduçãoCena de Casablanca: um filme capaz de evocar sonhos coletivos sobre os amores perdidosRaros são os filmes que adquiriram status de cult com tamanha rapidez como Blade Runner, de Ridley Scott (82). É de fato brilhante, como concepção e principamente como desenho de produção, esta versão do romance SF de Philip K. Dick. A decadente, explorada e colonizada Los Angeles do século 21, com sua mise-en-scene noir feita de chuva e nevoeiro, é um achado. Bem como sua fauna de detetives, andróides e cyborgs.
Não o melhor Hitchcock, mas bastante bom para participar desta lista e remeter ao primeiro depósito de material reciclável a versão recente com Michael Douglas e Gwineth Paltrow. Disque M Para Mataré um suspense menor do mago, mas nem por isso desprovido de interesse. O ano era 1954, a Warner morria de amores pela novidade da Terceira Dimensão (3D) e Hitchcock se fixava numa das várias louras de sua filmografia. O affair cinematográfico entre o diretor e a linda Grace Kelly se estenderia por mais dois títulos, Janela Indiscreta e Ladrão de Casaca. E justamente pela insistência do big boss Jack Warner com o novo processo 3D, obtido com câmeras absolutamente imóveis, Hitchcock focalizou sua atenção em sua nova atriz favorita. O resultado é que muito pouca gente viu as cópias em Terceira Dimensão, mas o público de todo o mundo agradeceu o caso de amor entre a câmera e Grace Kelly.
O filme de gangster teve um momento singular em 1967, com Bonnie and Clyde - Uma Rajada de Balas, de Arthur Penn. O enfoque não conformista do casal de bandidos produzido pelo período da Grande Depressão foi um dos principais responsáveis pelo imenso sucesso popular alcançado por esta aventura pela trilhas rurais que levam ao coração da América. Literal e figurativamente. De certa forma, a busca de uma nova estética para retratar a violência foi pioneira e influenciou mais ou menos um bom número de seguidores. A fogosa e resoluta Faye Dunnaway marcou presença como forte sex simbol.
E o terror não poderia faltar ao festival. O Exorcista é um desses exercícios onde o melhor estilo é não ter estilo nenhum. Vale dizer, o diretor William Friedkin não se prende a cânones ou à fórmulas; imprime alta voltagem à sua vertinosa montanha russa de emoções e horrores, manipulando a platéia a seu bel(zebu) prazer enquanto conta a história da adolescente habitada permissivamente por um demônio difícil de lidar. Muito pano para manga à época do lançamento, em 74. Muita gente nas filas, muito dinheiro nas bilheterias, duas sequelas sem o mesmo impacto. Vale conferir se a tela grande ainda sustenta o genuíno frisson que fez fama e fortuna para o filme.
E para encerrar, o mito em estado puro. Seria o filme mais romântico jamais realizado? O melhor filme saído de um grande estúdio de Hollywood, em todos os tempos? Muito mais um ícone do que uma obra de arte, Casablanca é o único cinquentão da mostra. As razões da sobrevivência sem traumas? O filme ainda hoje encanta como envolvente melodrama romântico, capaz de evocar sonhos coletivos sobre chances perdidas e amores perdidos. Além disso, antepõe amor e honra. Tem direção inspirada de Michael Curtiz, roteiro a seis mãos na medida certa, Humphrey Bogart e Ingrid Bergman comandando um elenco repleto de sutilezas. E se isso não bastasse, é um dos raros, raríssimos filmes onde a confluência de fatores positivos parece ser obra de alguma estrela da sorte. Em resumo, uma questão de sortilégio.
PROGRAMAÇÃO
Confira a programação do Festival de Clássicos que será mostrado no Ouro Verde
- Juventude Transviada - hoje
- Meu Ódio Será Sua Herança - sábado e domingo
- Blade Runner - dias 5 e 6
- Disque M Para Matar - dias 7 e 8
- Bonnie and Clyde - dias 9 e 10
- O Exorcista - dias 11 e 12
- Casablanca - dias 13 e 14
Horários das sessões: de segunda a sábado, às 14h30, 20 e 22h. Domingos e feriados às 16h30, 20 e 22 horas. Ingressos a R$ 5 e 2,50.





