Um festival de bom senso
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
O Festival Internacional de Londrina de 1998 mostrou um amplo leque de vertentes cênicas, procedimento que vem sendo apurado a cada edição do evento. Mantendo uma certa uniformidade de qualidade, salvo raras exceções, pautada no acabamento e resolução dos espetáculos, a programação trafegou calmamente entre o dramático e o cômico. Nenhum trabalho surpreendentemente perturbador, nenhum trabalho digno de arremesso de tomates. Nenhuma extravagância experimental, nenhuma tradição ortodoxa. Prevaleceu o território nivelado do bom senso.
Perceptível foi o fato de que os espetáculos musicais do ‘‘Cabar钒, uma das novidades do Filo, chamaram mais atenção que os próprios espetáculos teatrais. Como consequência, ocorreu, com suas devidas proporções, um deslocamento do potencial público dos espetáculos teatrais para os shows apresentados no ‘‘Cabar钒. Isso pode ser explicado de vários modos, desde o poder de massa que a música possui até o belo time de artistas convidados, desde o espaço que propicia o convívio social etílico até o próprio tratamento estético dado a ele.
A cada nova edição o Filo vem incorporando em sua programação outras formas de artes além das cênicas. A dança foi a primeira a ter espaço reservado ao lado do teatro nos Festivais dos últimos anos. A música ganhou espaço a partir da edição passada, de 1997, com a apresentação de ‘‘B. J. Crosby’’, ‘‘Stephen Barry Band’’, ‘‘Londrina Jazz Band’’ e ‘‘Edwin Pitre & Son Caribe’’. Na presente edição, encerrada domingo, a música ganhou maior presença com a criação do espaço ‘‘Cabar钒, onde se apresentaram Luiz Melodia, Arnaldo Antunes, Palo Q’Sea, Ângela Maria, Cauby Peixoto, Recuerdos son Recuerdos, Bernardo Pellegrini, Itamar Assunção, Alzira Espíndola, Paulo Moura e Jards Macalé.
Além da música, as artes plásticas fincaram pés no Filo 98 com as instalações de Angie Hiest (‘‘X - Vezes Gente Cadeira’’) e Jordi Rocosa (espaço do Cabaré), bem como a histórica exposição fotográfica ‘‘Olhares’’ de Haruo Ohara. A poesia, em nome da literatura, também integrou o Festival com recitais e lançamentos de livros.
Neste contexto, a diretora do evento, Nitis Jacon, já anunciou um grande evento para ano 2000, na virada do milênio, o ‘‘Festival de Todas as Artes’’ que comportaria as mais variadas manifestações artísticas, não apenas o teatro. Esta trajetória do Filo já estava latente na escolha do nome ‘‘Festival Internacional de Londrina’’ e não ‘‘Festival Internacional de Teatro de Londrina’’.
O diálogo entre as linguagens estéticas é uma das características da arte contemporânea e, de certa forma, inevitável. Mas, curiosamente, os espetáculos (teatrais) mais consistentes apresentados no Filo 98 foram aqueles poucos pautados no elemento primordial ao teatro: o ator.
Encarado de uma maneira mais ampla, o Festival Internacional de Londrina, na forma de ‘‘Mostra Internacional’’ e ‘‘Mostra Regional/Nacional Universitária’’, parece revelar que a atual Londrina se comporta como excelente consumidora de cultura e uma relapsa criadora.

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