Na oitava edição do Festival de Teatro de Curitiba (FTC) faltou brilho onde ele deveria estar: no palco. Esta foi a regra, embora tenham ocorrido exceções, especialmente no final do evento. O 8º FTC encerrou com dois momentos extremamente felizes: de um lado Raul Cortez mostrando que é grande, grande de coração e ator em todos os poros, em ‘‘Um Certo Olhar - Pessoa e Lorca’’; e de outro o português José Neves, em ‘‘É o Mar, Alfonsina, É o Mar!’’.
Dois monólogos tendo como base a sensibilidade poética. Monólogo, aliás, é o que não faltou a este festival. As apresentações solo repetiram-se tanto na mostra oficial como na mostra paralela, o fringe. Atuações brilhantes de Luís Melo (‘‘Nijinsky’’), Walderez de Barros (‘‘Tu e Eu’’), além dos acima citados, e no fringe as criações do mineiro Antonio Mello (‘‘Carmen’’) e do curitibano Rafael Camargo (‘‘A Anta de Copacabana’’). ‘‘O Amor que Diz Seu Nome’’, com Markus Avaloni esteve na categoria dos fiascos.
Yara Jamra, com ‘‘O Caderno Rosa de Lori Lamby’’ foi não só o pior monólogo, como o mais inútil espetáculo do 8º FTC. A atriz faz no palco o mesmo que fez no programa ‘‘Rá-Tim-Bum’’, da TV Cultura, algum tempo atrás, ou seja, uma criança que pelo timbre da voz e pelo comportamento, deve situar-se entre os cinco e seis anos, não mais que isso.
Como se tara fosse motivo de diversão, a peça dirigida por Bete Coelho pontuou o confronto da inocência com o humor grosseiro e escrachado. Para uma espectadora de ‘‘Lori Lamby’’ deve-se ter uma visão ‘‘artística’’ e não moralista da montagem. Seguindo-se esse raciocínio está aberta a temporada da banalização. Que tal colocar no palco as atrocidades da tortura, com pau- de-arara em cena e torturadores à volta mostrando o riso embutido na tara do sangue e da dor? Mais que aplaudir (de pé, que é a norma curitibana), talvez seja hora de refletir.
‘‘Um certo olhar - Pessoa e Lorca’’, reunindo textos dos dois maiores poetas ibéricos deste século, foi de longe o melhor espetáculo da temporada. O português Fernando Pessoa é um passional em luta com seus próprios desejos e limites, já o espanhol Garcia Lorca extravasa sua paixão e a conflitua com suas relações. A peça cria um diálogo soberbo entre estes dois monstros.
Eles falam sobre seus amores, suas vidas, suas dores, seus deuses. Eles contam anedotas, dão as mãos, debocham um do outro, repelem-se e cantam exorcizando o mistério indecifrável da vida. Raul Cortez dá conta do recado com sensibilidade e elegância. Aliás, a elegância é dividida com a direção precisa de José Possi Neto, que mostra a mesma intimidade com a obra do dois gigantes ibéricos.
Quem conhece o trabalho de José Possi teve na sequência dos poemas a leitura intrínseca da marca do diretor. A finesse de um casou-se com a do outro, resultando numa beleza inesquecível. Tudo funcionou com perfeição, das luzes ao figurino, aos dois excelentes músicos que dão cores portuguesas e espanholas no transcorrer da encenação. Final feliz para um festival de altos e baixos.

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