Um festival com tempero de melodrama
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quinta-feira, 28 de agosto de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Veneza, especial para a Folha2 
Nem bem começou a folia cinéfila (no estrito sentido etimológico: loucura) veneziana e já se vislumbra, sinalizado com tintas fortes, um caminho traçado pelo melodrama. A inteligente, anárquica comédia amalucada ''Burn After Reading'', feita de quiproquós pelos irmãos Coen, pode ter sido logo na abertura a exceção mais notável no quadro da dramaturgia que se seguiu até o momento.
Primeiro concorrente a entrar em cena, ''Jericó'', do alemão Christian Petzold, lida com um dilema tão curioso quanto interessante: o dinheiro em confronto com o amor. No argumento, três pessoas têm um encontro decisivo. O afável empreendedor turco Ali dá duro para não ser enganado pelos seus empregados. Ele é casado com Laura, mulher fascinante e de passado misterioso. Thomas, jovem de origem obscura, recebeu baixa do exército com desonra e é contratado por Ali como motorista e eventual guarda-costas. O triângulo amoroso então se coloca nestes relacionamentos, feitos de paixões, segredos e dependência.
Logo o espectador percebe que não há uma cena em ''Jericó'' em que o dinheiro não tenha um papel de peso, ou como imagem, ou como valor, ou como motivo de traição ou matéria de troca. É ele que lubrifica a narrativa, e é por ele que a danação se impõe afinal. Nesta parábola em que também é possível observar outra relação conflituosa, a de amor e ódio entre imigrantes turcos e alemães, o diretor Petzold adota o regime de parcimônia quase absoluta para contar sua história. Ele é com justiça um dos responsáveis pelo recente renascimento do cinema alemão.
Era grande, muito grande, a expectativa da chegada à disputa do Leão de Ouro do mais recente filme do japonês Takeshi Kitano, ''Aquiles e a Tartaruga'', terceira e última parte da até então malfadada trilogia iniciada em 2005 com ''Takeshi's'' e retomada com ''Glória ao Cineasta'', exibido aqui mesmo em Veneza no ano passado. Longe de ser plenamente satisfatório, no entanto o filme é disparado uma obra-prima em confronto com os dois anteriores, em conjunto mixórdia sem tamanho ou solução.
Definida pelo diretor como ''a autodestruição do artista'', a trilogia sobre a arte e o espetáculo é formada por alter-egos diversos. No primeiro filme, a luta entre o próprio Kitano e o personagem Beat Takeshi que o tornou famoso na tevê japonesa. No segundo, havia em cena o conflito do artista no momento da criação.
E desta vez é Machisu (o próprio Kitano, claro), pintor sem sucesso e quem, segundo o próprio cineasta afirmou na coletiva, encontrou a resposta para os conflitos psicológicos e de criação artística colocados nos dois filme anteriores. Para ele, a resposta para tudo é o envolvimento total no ato de criação, sendo irrelevante o sucesso de público e de crítica - o que conta de fato é trilhar sempre o próprio percurso.
Apesar do Leão de Ouro obtido aqui em 1997 com ''Hana-bi'' (''Fogos de Artifício''), e dos simpáticos ''Verão de Kikujiro'' e ''Zatoichi'', o que a esta altura está muito claro é que Kitano não tem tanto cacife assim para gastar três filmes debruçado sobre o próprio umbigo. Só mesmo o fascínio irrestrito que o oriente ainda desperta entre os europeus (o que inclui certa suspeita subserviência artística) para colocá-lo num panteão que decididamente é amplo e alto demais para o cinema que pratica.
* O jornalista viajou a Veneza a convite da organização do Festival.


