Neste ano, o Festival de Teatro de Curitiba teve algumas particularidades. Na abertura do 10º Festival de Teatro de Curitiba, cenas quentes de protestos aconteceram na porta da Ópera de Arame protagonizadas pelo Sindicato dos Bancários. No palco e no ar, os ‘‘Fantasmas’’, da Cia. Central do Circo, não decolaram. Frios e sem empatia, eles mostraram um espetáculo bocejante. A campanha publicitária do FTC também foi alfinete na bolha para a organização. Criticada, a campanha que colocou a produção teatral como ‘‘produto’’ procurava induzir o público a consumir biscoitos de fino trato como se abocanha um fast-food. Não colou.
O único que entrou no clima foi o ator Marco Zenni, que almeja integrar o livro dos recordes, e subiu ao palco 24 horas ininterruptas, com a peça ‘‘Lᒒ. O despropósito do ator, competindo com ele mesmo, descaracterizou a essência da arte dramática. Platéia cheia, idéia vazia.
Outra característica desse ano: incontáveis atores integrantes do Fringe fizeram uma via crucis pelos jornais da cidade, pregando cartazes em todos os pontos visíveis, distribuindo filipetas. Mas foi o corpo a corpo e o boca a boca que levaram o público aos teatros. Com isso, boa parte dos espetáculos do Fringe obtiveram um público acima do esperado. Ainda não foram finalizados os números, mas na maioria das apresentações do Fringe a que a equipe da Folha2 compareceu os teatros estavam cheios ou lotados. Foi recorrente os grupos do Fringe prestigiarem outras apresentações.
Neste ano, o FTC deixou no freezer a soberba intelectual de Gerald Thomas. Isso teve um efeito profilático. Mas o abrasivo Thomas passou o bastão para Antônio Abujamra, que encenou o mesmo personagem blasé com a imprensa. Já no palco, a ‘‘conferência’’ fez muita gente bocejar. Ele pegou o cachê e tchau e benção.
Se as 102 peças no Fringe impressionam pela quantidade, a curadoria deveria ter como meta um critério mais rigoroso para a inclusão de espetáculos num evento tão representativo. Alguns grupos completamente despreparados ocuparam espaços importantes com espetáculos completamente inconsistentes. Como o Festival de Teatro tornou-se um evento consolidado no cenário teatral brasileiro, a Mostra Contemporânea possui todo o apelo para ser financiada exclusivamente pela iniciativa privada, enquanto o Fringe poderia receber o incentivo do dinheiro público – no caso Prefeitura e Governo do Estado. Dessa forma, o teatro seria fomentado de uma forma mais eficaz e os grupos da mostra alternativa não chegariam numa aventura tão incerta. Como a reportagem da Folha2 apurou, muitos grupos passaram por sérias dificuldades, sem ter o que comer.
Finalizando, na Mostra Contemporânea, que ocupou os espaços mais privilegiados da cidade, destaque para dois dramaturgos: Marta Góes (Um Porto Para Elisabeth Bishop) e Luís Alberto de Abreu (Um Trem Chamado Desejo). Questões filosóficas de tirar o fôlego chegaram aos palcos curitibanos na Mostra Contemporânea e dividiram o público: ‘‘A Controvérsia’’; ‘‘Sacromaquia’’ e ‘‘Copenhagen’’.
O irlandês Samuel Beckett foi um dos autores mais encenados no FTC. No projeto ‘‘Felizes Para Sempre’’, nada menos do que três textos (Dias Felizes, Ir e Vir e Jogo); ‘‘Ooze/Ezoo’’; ‘‘Beckett em Dois Atos’’ e ‘‘Esperando Godot’’. Outro marca neste ano foram os dramas que abordam a vida de jovens em textos estrangeiros. ‘‘Trainspotting’’, de Harry Gibson, e ‘‘Subúrbia’’, de Eric Bogosian. Dos musicais, o destaque indiscutivelmente recai para ‘‘Um Trem Chamado Desejo’’, com o grupo Galpão, de Belo Horizonte. Esse espetáculo ficará na história do 10º FTC e mereceu os aplausos em cena aberta que recebeu.

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