Max de Castro, o filho caçula de Wilson Simonal, derruba classificações. É mais um expoente da geração sem-rótulos que expande, a cada novo disco, as fronteiras da música popular. Seu trabalho combina samba, soul, funk, jazz e drum'n'bass.
Agora está lançando ''Orchestra Klaxon'', o segundo álbum-solo pela Trama. Em ''Samba Raro'' (2000), o trabalho de estréia, fez tudo sozinho. Compôs, cantou, tocou, produziu e assinou os arranjos. Desta vez, dividiu as tarefas. O CD é ecumênico, celebrando o encontro de gerações.
Inclui parcerias com Erasmo Carlos e Yuka (do Rappa), além de um maracanã de participações, entre as quais o duo eletrônico Drumagik e o mestre J.T.Meirelles. A gravadora está fechando esta semana as negociações para distribuição do disco no exterior, onde o compositor virou celebridade depois de aparecer na capa da revista Time como o maior talento musical surgido no Brasil nas três últimas décadas.
Max tem 29 anos e, já, uma intensa experiência como produtor. Só nas duas últimas temporadas pilotou mesas de som para Frejat, Kid Abelha, Paula Lima, Otto, Leandro Lehart e o japonês Miyazawa. ''Orchestra Klaxon'' mostra a progressão do artista, do r&b verde-amarelo encharcado de eletrônica de ''Samba Raro'' para as sutilezas harmônicas, melódicas e rítmicas do novo repertório.
O repertório cresce a partir da metade do disco. Traz três faixas instrumentais: ''O Futuro pertence à Jovem Vanguarda'', ''Acapulco, Daqui a Pouco'' e ''Petit Comitê na Casa de Tia Cita''. Na parceria com Marcelo Yuka, ''Os Óculos Escuros de Cartola'', Max soa como Jorge Ben combinando batidas espaçadas, cordas e backings de Patrícia Marx.
A faixa homenageia o mestre do samba puro: ''Uma lente negra protege os olhos / dando chance a outros pontos de vista / poesia mantida / poesia cantada / poesia pichada / como consequência de vida / pra que a raiva não nos forme / com o mesmo peso e medida / o povo pobre faz da arte história / como os óculos escuros de cartola''.
Jorge Ben inspira também ''Calaram a Voz do Nosso Amor'', com versos indignados e acompanhamento de violão e flautas. São os dois grandes destaques do álbum ao lado do samba-soul ''Sonho de Verão'', cuja letra de Nelson Motta cola à melodia e o instrumental de big band remete a trilhas sonoras de filmes policiais dos anos 70.
O disco contou com diversas colaborações, além das citadas, reunindo ainda parcerias com Bernardo Vilhena, Fred Zero e Quatro e Seu Jorge. Entre os participantes figuram também a cantora Paula Lima, a Banda Mantiqueira, a seção de cordas da Orquestra Jazz Sinfônica, Liminha, Daniel Jobim, Fabio Fonseca e os veteranos músicos Wilson das Neves (bateria), Sérgio Barroso (contrabaixo) e Sérgio Carvalho (piano).
O anfitrião tocou piano, clavinete, órgão, guitarra, violão, beats e pro-tools. A seguir, confira a entrevista com o artista.
Por que o título ''Orchestra Klaxon''?
A Klaxon era a revista criada pelos artistas modernistas para expor idéias, textos e manifestos. Acho espantoso que o que eles escreveram no início do século passado ainda permaneça, ainda faça sentido. Escolhi o título inspirado neles. Quando terminei o disco, queria um nome que tivesse uma sonoridade impactante e pudesse ter vários significados. 'Orchestra Klaxon' traduz o jeito como eu percebo a música, como eu concebi esse novo trabalho, que fala de tantas coisas reunindo artistas de várias gerações. Procurei homenagear o conjunto da música popular brasileira de Pixinguinha aos DJs contemporâneos , todos os músicos e compositores que de uma maneira ou de outra se identificam com o espírito modernista.
Você, inclusive, escreve no encarte frases como ''nós não nos queixaremos mais de sermos incompreendidos por esses sistemas. Esses sistemas é que deverão se esforçar para nos compreender'' ou ''o futuro pertence à jovem vanguarda''. O estilo é de manifesto, não?
Na verdade, o disco já é musicalmente um manifesto. O texto é um complemento conceitual.
Que diferenças marcantes você vê entre esse disco e o ''Samba Raro''?
Esse disco é mais ambicioso musicalmente. O primeiro era 100% eletrônico. Ele foi gravado em 1999, quando a eletrônica era ainda um tabu na música brasileira. Sabia que as pessoas teriam dificuldades para compreendê-lo. Hoje, isso já foi superado. Todo mundo já está acostumado com os timbres digitais e as batidas programadas. Há até comerciais na TV usando o drum'n'bass na trilha. Então, como eu não tinha mais esse muro para derrubar, procurei me aprofundar nas harmonias, nas melodias, nas letras e nos arranjos. Especialmente nos arranjos. Não acho legal pegar o violão e cantar. Gosto de incorporar vários elementos para completar a idéia.
O que o rótulo MPB representa para você?
É um rótulo que perdeu seu sentido original. Antigamente, ele representava toda a diversidade da música brasileira, de Luiz Gonzaga a Tonico e Tinoco, todo o conjunto da música popular brasileira. Depois, não sei por quê, passou a designar a música produzida por cinco ou seis artistas. Artista de MPB passou a ser quem fazia música parecida com o que Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque e Milton Nascimento faziam. É um termo que, também, carrega um certo ranço. Falou em MPB, você já imagina o cara com um violão ou uma cantora de vestido longo...
Você se vê como uma figura solitária atuando pela renovação da música popular brasileira, ou percebe parceiros na aventura? Quem faz parte da ''jovem vanguarda''?
Sou mais uma voz nesse coro. Tem muita gente, cada um na sua área, cada um com seu jeito. São artistas que estão fora da mídia, que não têm músicas executadas nas rádios. São nomes como Seu Jorge, DJ Dolores, a turma do Instituto, o Xerxes, o Drumagik e outros nomes música eletrônica; o Rapin Hood, o Sabotage e o pessoal do hip hop; o Yamandú Costa, a Teresa Cristina, o grupo Semente e outros artistas ligados à tradição. Tem muita gente.
No disco, você assina faixa ''A História da Morena Nua que Abalou as Estruturas do Esplendor do Carnaval'' em parceria com Erasmo Carlos. Como foi esse encontro?
Sempre acompanhei e gostei do trabalho dele. Um dia, li uma entrevista em que ele elogiava meu primeiro disco, o que me deixou surpreso e muito feliz. Por coincidência, na mesma semana, ele fez um show em São Paulo e eu fui assistí-lo. Nos camarins, senti uma abertura para conversar e acabei fazendo um convite para compormos juntos. Ele ficou animado e foi super-atencioso. O Erasmo já fez mais de 400 composições. Ele poderia pegar qualquer uma e me dar, mas foi bem profissional. É um cara que leva a música muito a sério.
O disco traz músicas de teor político, especialmente as faixas ''Mancha Roxa'' e ''Calaram a Voz do Nosso Amor''. Como você afugenta a demogogia do discurso indignado?
O artista é influenciado por tudo à sua volta. Os acontecimento da vida acabam me inspirando, mesma que seja fruto da indignação. A ganância pelo poder e a cultura da exclusão são assuntos que causam desconforto e acabam me motivando a abordá-los. Mas procuro tratá-los de uma maneira diferente.
No ano passado, você foi elogiado pela revista Time, que o destacou como a maior revelação surgida na música popular brasileira nas três últimas décadas. O que isso representou para sua carreira?
Profissionalmente, foi maravilhoso, excelente. Me ajudou a marcar shows, distribuir meus discos no exterior, viabilizar meu trabalho. Mas encaro tudo o que é relacionado a sucesso, vendas, críticas elogiosas e execução como uma consequência do meu trabalho. Não deixo que nada disso interferira na minha criação. Gosto de me sentir livre para compor. É claro que acho ótimo quando as rádios tocam minhas músicas. Mas penso que, hoje em dia, as emissoras já não representam a vontade da maioria do público como antes. O que é executado hoje nas rádios, é resultado muitas vezes de acertos com gravadoras. Então, pessoalmente, não deixo nada de fora me acomodar. Não quero perder o ritmo de produção. Estou no começo da carreira, tenho muito que aprender. Procuro pensar na continuidade.

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