Todo mundo tem sua lista dos melhores. Críticos costumam encabeça-las com ‘‘Cidadão Kane’’, de Orson Welles. Mas há uma grande diferença entre incensar um clássico e reconhecer o novo. O poeta, tradutor, ensaísta e crítico carioca José Lino Grunewald (1931-2000) foi um dos que perceberam a sintaxe revolucionária do filme ainda nos anos 50, quando não se havia estabelecido a consciência de sua importância.
‘‘Orson Welles é o maior realizador do cinema sonoro. Depois de ‘‘Cidadão Kane’’ não há nada de novo em método de estrutura na sétima arte’’ – escreveria ele no Jornal de Letras, depois de assistí-lo no Festival do Cinema Americano, em 1958, no Rio de Janeiro. Não por acaso, um artigo sobre Welles foi o escolhido para abrir o volume ‘‘Um Filme é um Filme – O Cinema de Vanguarda dos anos 60’’ (Companhia das Letras), organizado por Ruy Castro.
O livro é uma coletânea de artigos sobre cinema publicados por Grunewald entre 1958 e 1970 no Jornal de Letras e no Correio da Manhã.
No prefácio, Castro lembra que o amigo – responsável por sua entrada no Correio da Manh㠖 sempre fora um cinéfilo voraz, tendo apreciado 2.832 filmes entre 1946 e 1960, todos anotados um por um em cadernos escolares nos quais registrava o nome do diretor, o elenco, uma breve avalição crítica e até a sala em que os assistira.
Suas análises partiam de alguns elementos básicos. Cada filme era avaliado por sua ‘‘estrutura, dinamismo, ritmo, função e rigor’’. Era sua declaração de princípios, sobre a qual aplicava conceitos extraídos de autores em voga na época como Maurice Merleau-Ponty, Walter Benjamin e Whitehead. Nas críticas, também emprestava aos cineastas a famosa classificação de Ezra Pound conferida aos poetas: havia os ‘‘inventores’’ (os revolucionários, que inauguravam processos); os ‘‘mestres’’ (que levavam adiante as inovações) e os ‘‘diluidores’’ (que apenas pegavam carona nas inovações).
As referências, contudo, eram filtradas. Grunewald não via os filmes como literatura filmada. Se o cinema se parecia com outra arte, era com as artes plásticas. Mas, na condição de única arte industrial, o cinema se parecia mesmo era com o próprio cinema. Ruy Castro observa que, embora nem desconfiasse, ‘‘ele estava se transformando no primeiro crítico cult de cinema do Brasil’’.
Ao apreciar um filme, só lhe interessava saber se ele trazia alguma contribuição para a linguagem do cinema, ou, no mínimo, se era audacioso ou provocava algum impacto no espectador. Para ele, ‘‘Cidadão Kane’’ era imbatível como filme-invenção, título que perduraria por longas temporadas até ser suplantado pela explosão da Nouvelle Vague e toda a efervescência dos anos 60.
‘‘Orson Welles esperou dezenove anos por outro cineasta que surgisse com um filme tão revolucionário quanto ‘Cidadão Kane’. A revolução agora é ‘Hiroshima Meu Amor’’, de Alain Resnais’’ – escreveria ele em junho de 1960. O mesmo diretor francês seria acolhido com exaltação dois anos depois. ‘‘Griffith, pode-se dizer, inventou o cinema: as virtualidades das relações entre as imagens. Resnais, agora, descobriu a linguagem do cinema’’ – afirmaria ele, referindo-se a ‘‘O Ano Passado em Marienbad’’.
Um ano antes, fora Jean-Luc Godard quem o entusiasmara. Descreveu ‘‘Acossado’’ como ‘‘um filme de inventor, um filme que formula novos esquemas de relações entre os elementos cinematográficos, na procura de plasmar um ritmo instigante, anticausal – um ritmo do comportamento em ação’’. Já em 1968, quando surgiu ‘‘2001: Uma Odisséia no Espaço’’, Stanley Kubrick passaria a ostentar a autoria do melhor filme de todos os tempos.
A essa altura, Grunewald era um dos faróis da época, pelo menos entre os críticos de cinema. No livro, nada de relevante ficou de fora. ‘‘A Aventura’’ de Michelangelo Antonioni, ‘‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’’ de Glauber Rocha, ‘‘A Doce Vida’’ de Fellini, e ‘‘Jules et Jim’’ de François Truffaut são alguns dos demais títulos fundamentais do período brindados com suas reflexões.
Ao leitor, resta mergulhar nesta páginas e aguardar o lançamento da também coletânea de críticas que o cineasta Rogério Sganzerla produziu nos anos 60 e que deve chegar ao público até dezembro pela editora Azougue.

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