Na entrega do Oscar, em março do próximo ano, Jim Carrey chegará ao Dorothy Chandler Pavilion, em Los Angeles, não apenas como um espectador, mas como um candidato em potencial ao Oscar de Melhor Ator (quem diria!), pela sua atuação em ‘‘O Show de Truman, O Show da Vida’’ (em cartaz nos cinemas). Se esta previsão não se confirmar, a Academia estará cometendo mais uma de suas várias injustiças. É preciso dar a mão à palmatória, Jim Carrey está muito bem na pele de um homem cuja a vida não passa de um roteiro televisivo.
Mas, ‘‘O Show de Truman, o Show da Vida’’ merece essa e muitas outras indicações ao Oscar. É um dos melhores filmes norte-americanos dos últimos tempos e, o melhor trabalho do diretor australiano Peter Weir desde ‘‘Sociedade dos Poetas Mortos’’. Mesmo sendo uma produção pouco convencional e particularmente pessoal, dificilmente será ignorada pelos conservadores membros da Academia, pois é uma realização notável e, ao mesmo tempo, uma fábula complexa sobre uma sociedade saturada pela mídia.
A história é um achado, a narrativa é envolvente e provocativa, a mensagem é oportuna. ‘‘O Show de Truman’’ é uma terrível e brilhante metáfora sobre a espetacularização do mundo e o desrespeito à privacidade do ser humano. Jim Carrey interpreta Truman Burbank, um homem cuja a existência não passa de um roteiro. Ele é o personagem central de um programa recordista de audiência, transmitido 24 horas por dia. Tudo na vida de Truman é uma grande mentira. Sua família, seu casamento e suas amizades foram fabricadas pelo diretor do programa. Ao descobrir que é prisioneiro de um cenário e que tudo ao seu redor é falso, Truman tenta fugir do roteiro pré-estabelecido e conquistar sua independência no mundo real. Uma atitude digna de Nora, personagem da peça ‘‘Casa de Bonecas’’, de Henrik Ibsen.
A única coisa verdadeira na vida de Truman é o amor que ele nutre por uma atriz que foi excluída do elenco do programa. Fora de cena, ela torce para que Truman consiga sair daquela sucursal do paraíso que, na verdade, é um pesadelo radiante de sol e felicidade fabricadas. A vida do personagem é controlada diariamente por cinco mil câmeras espalhadas pela fictícia cidade de Seahaven. É a partir deste enredo que Peter Weir faz uma crítica implacável ao messianismo televisivo.
‘‘O Show de Truman, o Show da Vida’’ nos convida a uma reflexão sobre o real e o falso em nossas vidas. Até que ponto podemos acreditar naquilo que vemos ou vivemos? Mas, principalmente, questiona o direito à privacidade. O tema abordado não poderia ser mais atual. Existem, por exemplo, muitas cidades na Inglaterra onde a população é vigiada diariamente por câmeras instaladas em pontos estratégicos. Além disso, a cada dia as pessoas estão expondo suas intimidades na Internet à mercê do voyeurismo dos navegantes da Rede.
Truman, na verdade, é uma mistura do personagem de George Orwell, autor da obra futurista ‘‘1984’’, com Chance Gardner de ‘‘Muito Além do Jardim’’, interpretado por Peter Sellers há quase 20 anos. Chance era um sujeito patético e irreversivelmente lobotizado pela TV, afastado da realidade, vivia em um limbo existencial e mental. Já Truman é algo ainda pior. Nascido e criado para ser, sem saber, um personagem de televisão, é cobaia de uma sociedade que vive da espetacularização do homem. Salvo alguns exageros interpretativos de Jim Carrey e um final bem ao estilo hollywoodiano, ‘‘O Show de Truman’’ é um filme emocionante, intenso, provocativo e intrigante. Imperdível!DivulgaçãoJim Carrey, apesar de um pouco exagerado, pode ser um forte candidato ao Oscar de Melhor AtorCelso Mattos

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