Regularmente submetido à artilharia dos estúdios concorrentes (DreamWorks, Fox), a veterana Disney decidiu ostensivamente (definitivamente?) mudar de tom. Em lugar da legendária e adocicada gentileza, um humor mais agressivo. Ao contrário da rósea edulcoração, o politicamente incorreto – mas nem por isso condenável, ou até por isso adorável. Resultado: ‘‘Lilo & Stitch’’, a partir de hoje em lançamento nacional (veja a programação de cinema na página 2), é o estimulante produto desta escolha decisiva. Sai de cena o herói coberto de virtudes (como o Simba em ‘‘O Rei Leão’’) para dar lugar a este impagável, incorretíssimo Stitch, divertido anti-herói globalmente positivo, capaz de nocautear o mais recalcitrante mau humor. Uma espécie de E.T. na mesma medida sedutor, e que pode também até provocar lágrimas, já que o filme, mesmo rebelde, permanece fiel aos princípios disneyanos básicos. Embora reciclados para não perder o bonde da modernidade, estão aqui valores como amizade, solidariedade e a apologia da familia.
Lilo (pronuncia-se Leilou) é uma menina havaiana com bons motivos para ser triste como é. Os pais morreram e ela se fecha porque é diferente e os amigos zombam dela. Vive solitária, alimentando os peixes com o dinheiro da venda lixo que encontra nas praias. Stitch, ou ‘‘Projeto 626’’, o monstrinho azul e carismático, é fruto de fracassada experiência realizada em planeta distante, um desastre da manipulação genética com componentes tomados por empréstimo de um Gremlin (quem se lembra?) e do Pikachu da tribo dos Pokémons. Ou se preferirem, o cruzamento de um ursinho coala com o demônio da Tasmânia – Taz, para os íntimos. Adicione-se a estas inusitadas características um corpo à prova de balas e de fogo, cérebro afiado como um computador, além de um temperamento cínico e oportunista e se obterá os motivos que decretaram a perseguição a Stitch. Em fuga pela galáxia, ele acaba no Havaí, disfarçado de cachorro de estimação para em seguida formar uma improvável dupla com a pequena Lilo.
A partir daí, o filme narra suas peripécias com uma bela energia. A princípio mais manipulador do que simpático e gentil, Stitch se aproveita da boa índole de Lilo para não voltar ao planeta de origem. Mas com o tempo deixa de se comportar como oportunista e torna-se amigo de verdade da menina, unidos num mesmo objetivo: sublimar as perdas e buscar as respectivas identidades e fontes familiares. No fundo, ambos partilham uma tristeza latente. Mas Chris Sanders, o roteirista e diretor (com Dean Deblois), trabalhou com astúcia. Se por um lado Stitch é um patife, ele nunca é um ‘‘mau’’ patife porque é sempre
divertido e engraçado. E se Lilo por sua vez é melancólica, ela nunca é ‘‘down’’: dança a ‘‘hula’’ e adora Elvis Presley – com direito a antológica imitação proporcionada por Stitch.
Não é demais repetir: a idéia de um extraterrestre rabugento e insuportável, herdeiro direto da animação japonesa, é coisa rara no quadro de produções Disney, e não há dúvida de que esta malícia – naquele velho estilo dos Looney Toons da Warner – causa um bem-vindo efeito burlesco ao estático e embolorado bom-mocismo de Tio Walt Disney, sem que o filme perca o seu lado ‘‘coração’’. E paradoxalmente, este sopro de novidade no argumento contrasta com a velha mas sempre refrescante estética quase franciscana que se vê na tela, em forma de cenários de aquarelas feitas à mão e distante dos megaorçamentos e da tecnologia mais sofisticada.

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