Um estranho mundo normal
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de março de 1999
Marcos Losnak Especial para o Folha2 
Milo era um menino que não via nenhuma graça no mundo. Quase tudo que fazia parecia uma perda de tempo. Na escola não entendia por que precisava resolver inúteis problemas de matemática. Não via sentido em saber onde ficava a Patagônia, saber soletrar palavras e outras coisas.
ReproduçãoNum desses dias entediados, Milo chegou em casa e encontrou uma caixa em seu quarto. Ao abri-la descobriu um jogo para aqueles que nunca viajaram a terras estranhas. Achou tudo muito esquisito, mas não tendo nada para fazer, resolveu montar o jogo.
Em alguns minutos, Milo estava dirigindo um carro rumo a um lugar chamado Dicionópolis. Como as placas da estrada anunciavam para um lugar chamado Expectativas, o garoto perguntou que tipo de local era esse. Um homem que se encontrava na beira da estrada respondeu que Expectativa é o lugar para o qual todos sempre devem ir antes de chegar onde estão indo.
Este é o início das aventuras de Milo, personagem do romance infanto-juvenil Tudo Depende de Como Você Vê as Coisas (The Phantom Tollbooth) lançado pela Editora Companhia das Letras. Escrito pelo arquiteto norte-americano Norton Juster e ilustrado por Jules Feiffer, a obra é composta de dois elementos básicos: a lógica e sua inversão acompanhado do non sense desenvolvidos por Lewis Carroll no lendário Alice no País das Maravilhas, e a trajetória do arquétipo do herói mitológico.
Como herói mítico, Milo possui a missão de unir dois países separados por uma guerra, Dicionópolis, o país das palavras, e Digitópolis, o país dos números. Para isso precisa atravessar regiões sombrias e vencer poderosos demônios e resgatar duas princesas gêmeas aprisionadas numa torre, Razão Pura e Prima Rima.
Milo, ao sair do mundo real e entrar no território da imaginação, conhece o cachorro Cãonômetro (uma espécie de cão relógio) e em sua companhia conhece os lugares mais estranhos que sua imaginação poderia atingir. Em Dicionópolis, a grande produtora de palavras do mundo, as palavras são cultivadas como frutos de árvores. Em Digitópolis, a grande produtora de números do mundo, os números são garimpados em minas como diamantes.
Tudo aquilo que Milo achava inútil e chato na escola, passa a ganhar um novo sentido, mesmo que absurdo, porque tudo depende de como se vê as coisas.
Norton Juster, em grande parte de Tudo Depende de Como Você Vê as Coisas, cria os jogos de lógica temperados de non sense inspirados em Lewis Carroll. Do gordo mais magro do mundo, que é o maior anão do mundo, que por sinal é o menor gigante do mundo, Milo recebe o seguinte conselho para não se perder do caminho: É bem mais fácil dizer se você está perdido do que se você esteve perdido, porque, em muitas ocasiões, o lugar para onde você está indo é exatamente o lugar onde você está. Por outro lado, você frequentemente descobre que o lugar onde esteve não é de modo algum o lugar para onde devia ter ido, e, como é muito mais difícil encontrar o caminho de volta de um lugar de onde você nunca saiu, sugiro que vá para lá imediatamente e tome uma decisão.
Entre os seres que Milo encontra pelo caminho de sua jornada, existe um que flutua no ar sem conseguir colocar os pés no chão. É integrante de uma família de seres que nascem no ar e só conseguem tocar o chão quando adultos. Não são como os humanos normais que nascem no chão e vão crescendo para cima, eles nascem em cima e vão crescendo para baixo. Há também o Dr. Kakófonos, especialista em dissonâncias com seu laboratório repleto de ruídos guardados em vidrinhos. Tratando apenas de doenças que não existem, não pode curar ninguém e assim ninguém sofre. A lista de seres malucos é enorme.
Após cumprir sua jornada e voltar para casa, para o mundo real, Milo aprende que para viajar para outros lugares inimagináveis, precisará viajar por contra própria, sem a ajuda de nenhum jogo. A imaginação é um combustível desenvolvido dentro de cada um, não há postos de abastecimento em qualquer esquina. Mas há alguns aditivos como Tudo Depende de Como Você Vê as Coisas.
Tudo Depende de Como Você Vê as Coisas de Norton Juster, Editora Companhia das Letras, ilustrações de Jules Feiffer, tradução de Jorio Dauster, 258 páginas, R$ 20,00.


