Um estojo poético
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 27 de junho de 1997
Antônio Mariano Júnior Londrina 
Mário CésarSilmara Fernandes: hai-kais em estojo de madeira para crianças e adultosO pedido é de ajuda financeira. Mas é pouca coisa: R$ 1,5 mil, quantia que a poeta londrinense Silmara de Oliveira Fernandes precisa para finalizar o projeto do livro Quadradinhos de Sabão. São 34 poemas próximos à formatação Hai-Kai destinados principalmente às crianças cuja impressão ela já conseguiu através da vice-reitora da Universidade Estadual de Londrina, Nitis Jacon. O dinheiro que a poeta está precisando se destina à fabricação de estojos de madeira (medindo 23x17 centímetros) onde serão acondicionados os poemas.
Não é de hoje que a poeta está à cata de patrocinadores para o seu Quadradinhos de Sabão. A luta começou no ano passado quando ela estimava algo em torno de R$ 5 mil para viabilizá-lo. Tentou e não conseguiu um só tostão até que Nitis Jacon garantiu a impressão dos poemas através da gráfica da UEL. Outra ajuda significativa foi da Midiograf que doou o papel para impressão. Além disso, Silmara conseguiu a doação dos lacres de segurança dos estojos feita por Cíntia Canziani e que terá ilustração do artista plástico Laércio Redondo.
Em outras palavras, mais de meio caminho andado. Agora, fica a parte aparentemente mais fácil que é conseguir o dinheiro para a construção dos compartimentos que serão confeccionados em compensados de mogno. Se a poeta conseguir tudo, Quadradinhos de Sabão sairá com uma tiragem inicial de mil exemplares que serão comercializados a um custo ainda incalculado.
SingelezaQuem patrocinar pode ter certeza de estar dando o aval a um projeto que une criatividade e cultura. Os poemas são de uma singeleza extrema e contam com ilustrações de crianças com idades entre 3 e 5 anos, pertencentes à Escola Seta. Sob orientação da professora Lígia Sokolowski, que lia os poemas em voz alta, a criançada soltou a imaginação.
Resultado: surgiram desenhos tão ingênuos quanto instigantes. Como diria Manoel de Barros, o mundo das crianças é feito de poesia. A idéia do projeto é atingir as crianças mas também o público adulto- diz Silmara Fernandes. Quadradinhos de Sabão traz prefácios de Renata Machado, Nitis Jacon e Mário Prata.
A idéia de armazenar os poemas em estojo é muito particular: além de associá-lo à infância e escolaridade, ela acaba por fazer uma referência à cultura japonesa. Os japoneses trabalham muito com artefatos de madeira- afirma. Os interessados em patrocinar podem entrar em contato através do telefone (043) 328-2001.
Poesias de uma certa Ana Enquanto aguarda o retorno para a conclusão de Quadradinhos de Sabão, Silmara Fernandes começa a colocar em prática um outro projeto futuro: fazer algum trabalho em cima da obra da poeta Ana Cristina César, morta em 83. O primeiro passo será embarcar, nos próximos dias, para o Rio de Janeiro onde ela vai se encontrar com o pai da poeta, Waldo Viera César.
Lá, ela vai vasculhar um possível tesouro que está prestes a ser encaminhado, por vontade da família, ao Instituto Moreira Sales. São três caixas de papelão que guardam escritos originais deixados por Ana Cristina - cadernos de poesia, correspondência, fotos de família e até mesmo uma pasta rosa onde estão anotações ou rascunhos de possíveis poemas catalogados como Prontos mas rejeitados, antigos e soltos e inacabados. E mais, muito mais coisas.
No Rio de Janeiro, Silmara pretende ficar poucos dias. O suficiente para tomar pé do legado original de Ana Cristina César. A partir disso, ela pretende fazer alguma coisa maior, por enquanto não revelada, sobre a poeta que cometeu suicídio aos 31 anos. Mas o que me interessa é a literatura dela e não a sua morte- avisa.
Silmara lembra que a primeira vez que tomou contato com a obra de Ana Cristina foi em 85, mais precisamente através da coletânea Inéditos e Dispersos. Daí em diante, leu tudo que lhe caiu às mãos. A poesia dela é bem íntima e, para a sua época, não é nada caduca- analisa. O entusiasmo e identificação foram tantos que a levou a fazer uma peça teatral - Bliss, referência a um um conto homônimo de Katherine Mansfield traduzido pela poeta. Um monólogo de 45 minutos de duração.
O primeiro passo foi entrar em contato com o pai da poeta, em 95. O segundo foi remeter o texto para apreciação. De ligação em ligação, de correspondência em correspondência, a amizade. Agora, é aguardar para ver o que Silmara tem a apresentar depois que abrir o baú de papelão da poeta.


