‘‘Um fantasma abandona a Europa.’’ Assim sentenciou o escritor alemão Heiner Muller na época da fatídica queda do Muro de Berlim, em 1989. O fato divisor da história ampliou os horizontes para os homens (não só os alemães), mas na poeira levantada trouxe uma série de questionamentos existenciais para os sobreviventes.
Esses questionamentos levaram Heiner Muller (morto em janeiro de 1996) a escrever ‘‘Ayax, Por Ejemplo...’’, um poema dramático solo, concebido entre 1993 e 1995. Esse espetáculo-solo será apresentado hoje e amanhã, pelo grupo uruguaio La Cuarta Producciones, no Filo 2000, no Teatro Zaqueu de Melo, às 19 horas, em Londrina. ‘‘Ayax...’’ explicita a necessidade de usar máscaras para dialogar com os mortos. Muller faz um reflexão depois da queda do Muro, observando a vida contemporânea, muitas vezes, sob o ponto de vista de Ajax, mito grego que perdeu tudo e se suicidou.
‘‘O público sai do espetáculo com muitas perguntas e não com respostas. ‘O que vou fazer agora?’’’, afirma a diretora Mariana Percovich. Por isso, de acordo com a diretora do La Cuarta, o espetáculo exige do público uma atenção redobrada, pois há muita informação para ser assimilada. Segundo Mariana, ‘‘Ayax...’’ comove e instiga a pensar. Em cena, apenas Claudio Castro, que imprime um tom áspero, dramático e incômodo à coletânea de escritos.
Ajax, herói na Guerra de Tróia, pensa ser herdeiro de Aquiles e que merece receber suas armas. Mas as armas de Aquiles são entregues para outro e Ajax se sente humilhado por isso. O herói clama por um lugar digno e decente na sociedade. Como não alcança seu objetivo, decide morrer. Muller se identifica com Ajax porque, de certa forma, foi ‘‘suicidado’’ pela sociedade alemã. O exílio interior sob os refletores da ribalta. No palco, o ator Claudio Castro interpreta o próprio Muller, outras vezes Ajax, ou um narrador. Sempre uma máscara do próprio dramaturgo, revelando uma intertextualidade latente. Mas o que pode ser decantado, ao final, é um questionamento emblemático: quem sou eu nessa sociedade?
A diretora Mariana Percovich, 36 anos, fez carreira como professora de Literatura e também como crítica teatral por 10 anos. Quando trabalhava como editora de cultura de uma importante revista de Montevidéu, resolveu abandonar o jornalismo e a docência, para se dedicar integralmente ao teatro, como diretora teatral. A estréia de ‘‘Tu Casarás na América’’ se deu numa sinagoga e foi apresentado no Filo em 1996.
Mariana Percovich fez a opção por um teatro alternativo, voltado para a experimentação e sobretudo trabalha com novos dramaturgos, de preferência os mais provocativos, que ofereçam uma nova proposta cênica. ‘‘É um teatro que mexe com o escuro da vida’’, afirma a diretora. O impacto causado por seus espetáculos se dá, principalmente, pelo alto grau conservador do teatro uruguaio. ‘‘Faço um teatro de confrontação’’, admite. Por isso, o trabalho do grupo La Cuarta Producciones é conhecido como teatro cruel. Com uma população eminentemente longeva, o público que aceita e acompanha melhor as produções do grupo La Cuarta Producciones é jovem. ‘‘A juventude entende mais a minha proposta’’, prossegue. O grupo inseriu suas montagens numa estação de trem, estábulo, num salão de baile desativado.

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