A dança contemporânea se ajeitou definitivamente como concubina do teatro – por isso a denominação dança cênica – e parece se questionar ininterruptamente: qual o movimento que ainda não foi feito? Isso porque o caos ordena os caminhos da dança teatro e causa a impressão que tudo vai desconstruir-se antes de estar elaborado. Os estilos díspares se fundem nas mais diferentes propostas, inserindo a dança cênica num perigo inerente ao pós-modernismo: a ausência de significados na sucessão de movimentos.
Outro fator que cerceia o processo de sedimentação da dança cênica é que o público passa a ser efetivamente co-autor do espetáculo. Isso exige um comprometimento com o espetáculo apresentado. Inserida nessa corrente, ‘‘Jardim de Tântalo’’, com o Grupo F.A.R.15, de São Paulo, fez uma única apresentação no Filo 2002, no último domingo. A insanidade, a demência e o delírio que servem de roteiro inicial aos espectadores podem ser descartados, diante das inúmeras leituras a que se presta a montagem paulistana. O ponto de partida vira apenas convenção.
Depois de gritos e sussurros, o silêncio inicial do espetáculo incomoda. Afinal, o movimento suplica pelo som. Os bailarinos não deixam brecha para inscrever ‘‘Jardim...’’ nas amarras da loucura. A máscara neutra, melhor dizendo da indiferença, se torna um enigma. Os bailarinos fugiram do clichê dos olhos esbugalhados, comum nas montagens dessa natureza. Os movimentos quebrados e retilíneos desenhados pelo coreógrafo Sandro Borelli excluem o espetáculo do moto-contínuo de movimentos circulares a que nossos olhos estão acostumados.
Em ‘‘Jardim de Tântalo’’, a charada instigava a curiosidade: o que acontecerá agora? (Quer acerto maior que esse?) Esse papel de espectador ativo não agrada a maioria, que precisa se valer ainda mais de seus signos para decodificar as brechas do silêncio, das pausas e dos movimentos. O espectador médio quer sair do espetáculo recompensado afetivamente, o que não é exatamente o caso do grupo paulistano. O F.A.R. 15 devolveu ousadia, técnica apurada, momentos de lirismo e envolveu num universo particular e imaculado. Embalados por uma trilha sonora inspirada, cada integrante se tornou sujeito, imprimindo sua individualidade no conjunto. Nesse arquétipo da eterna insatisfação humana de onde o personagem mitológico Tântalo foi pinçado, há espaço inclusive para romper as limitações corporais.
No sábado, os mineiros da Cia. Armatrux apresentaram dois extremos no Filo. Foram aclamados com o show de rock comandado por bonecos em ‘‘Liliputz’’ e numa apresentação subsequente, seguiram o itinerário corporal na cidade imaginária em ‘‘Invento para Leonardo’’. A contemporaneidade também faz parte do vocabulário corporal da Armatrux em ‘‘Invento...’’. Combinando elementos da dança e teatro, a montagem foi ambientada numa casa, descartando a conotação de morada. O grupo mineiro apresentou um espetáculo urbano, árido, cosmopolita e impenetrável como concreto.
Tão cosmopolita que abandonou o público (co-autor) falando sozinho. A conexão público/atores se mostrou frágil e na maior parte do tempo não se concretizou. A dança comum na rotina da cidade se estabeleceu num patamar em que a ausência de significados imperava. ‘‘Invento...’’ não causou expectativa sobre a quebra de limites que a dança contemporânea permite, nem mesmo deixou rastros de uma leitura superficial do mundo urbano. A incomunicabilidade tão presente nos vazios urbanos mostrou a cara e dessa vez com um sotaque mineiro.

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