Um espetáculo profano
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 12 de novembro de 1996
Zeca Corrêa Leite 
Com um espetáculo que será levado de hoje a quinta-feira no Memorial de Curitiba, a Camerata Antiqua de Curitiba lança oficialmente seu mais novo CD - o álbum duplo Cancionero de Uppsala. Pela primeira vez em todo o mundo o conjunto de 54 canções espanholas do século 16 é gravado na íntegra.
O espetáculo terá caráter cênico, com roteiro escrito pelo maestro Roberto de Regina. Os atores estão sendo dirigidos pela atriz Maria Fernanda Meirelles, do Rio de Janeiro. Escrevi o roteiro com base nas canções; é uma farsa em dois atos, explicou.
Cancionero de Uppsala é a coleção mais importante de música e poesia da Espanha na passagem dos séculos 15 ao 16, lembrada com frequência pelos corais. Não existe conjunto coral no Brasil e no mundo que não tenha cantado uma ou duas peças do conjunto, comentou o maestro. Porém, isso nunca aconteceu antes na sua totalidade.
A obra, como um todo, é ampla. Ela recebe desde a escrita musical mais abstrata e sofisticada até as populares. Seus temas também são diversificados: desde a contemplação da natureza a episódios brincalhões, passando pelas histórias de amor.
O regente observa que a irreverência e o aspecto picaresco - até mesmo erótico - comuns nos madrigais ingleses, italianos e canções polifônicas francesas, muitas vezes não puderam ser traduzidos. Ele atribui à presença sinistra da Inquisição na Espanha esse distanciamento espanhol com os países vizinhos.
A maior parte da obra é escrita em língua espanhola, quatro são em catalão e duas numa mistura de galego e português. Seus autores são desconhecidos e apenas uma canção traz o registro do compositor. É a Dezilde al Caballero que no se Quexe, de Nicolas Gombert (1495-1556), importante compositor flamengo que esteve a serviço do rei Carlos V.
Acredita-se que tenham contribuído nesta coleção, entre outros, Cristóbal de Morales, Juan del Encima, Pedro Ordo¤ez, Antonio Calazans e Bartolomé Escobedo. Para chegar a essa conclusão foram feitos estudos do estilo e da característica de cada música por estudiosos da área, embora nada exista de oficial.
Profano e religioso As canções atravessaram os séculos graças ao cuidado de um anônimo que fez a compilação dos trabalhos. Não se sabe se a pessoa queria divulgar ou possuir em sua biblioteca a literatura do que havia de melhor na produção musical espanhola da época. Existe quase uma tendência à mostragem de estilos, ritmos e procedimentos harmônicos.
O livro, uma preciosidade absoluta, foi encontrado na Biblioteca da Universidade de Uppsala, na Suécia. Nele estão os 54 vilancicos, um gênero de canções que foi a principal manifestação musical entre o fim do século 15 e o início do século 16.
A Espanha vivia tempos de horror com a Inquisição, que ali tinha uma de suas faces mais brutais. A música profana deu lugar à religiosa, e o vilancico acabou se tornando a última das grandes formas profanas da música espanhola durante 200 anos.
A temática envolve sempre assuntos pastorais ou amorosos, quase sempre é musicado como se fosse feito para dançar. A forma é simples, com diversas estrofes ligadas a um refrão. Mais tarde, voltou-se apenas ao cenário católico, como era de se prever, e mesmo nesta coletânea aparecem alguns com referências ao Natal.
Serviço:
Cancionero de Uppsala, espetáculo de lançamento do disco da Camerata Antíqua de Curitiba. Regência do maestro Roberto de Regina. No Memorial da Cidade (Largo da Ordem), de hoje a quinta-feira, às 20h30. Entrada franca.


