UM ESPETÁCULO POUCO CONVENCIONAL
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sábado, 18 de agosto de 2001
Katia Michelle<BR>De Curitiba 
Esqueça tudo o que você sabe sobre Chico Buarque e Edu Lobo e vá a ''Cambaio'' pronto para novas experimentações. O espetáculo, dirigido por João Falcão, com letras de Chico e músicas de Edu, não foi concebido com a grife dos grandes musicais da dupla, que marcou o teatro musical brasileiro nas década de 70 e 80. A peça, que tem única apresentação hoje, no Guairão, em Curitiba, apresenta uma sonoridade própria e não segue uma cartilha musical, conforme define o diretor. ''É uma experiência teatral com o objetivo de descobrir uma linguagem original'', resume João Falcão.
Mas o tempo que separa ''Cambaio'' de espetáculos como ''O Grande Circo Místico'' (1982), por exemplo, não deixa de fora a genialidade do trabalho da dupla. A última participação em conjunto de Chico e Edu no teatro foi há 16 anos, em ''O Corsário do Rei'', uma encenação de Augusto Boal. Depois seguiram trilhas paralelas, mas sempre donos de um trabalho original, ainda que cambaleando entre parecer aprazível ao grande público ou não.
No espetáculo argumento, músicas e letras foram criados em conjunto para depois receberem tempero essencial de Lenine, que assina a direção musical. Adriana Falcão, mulher do diretor e autora do romance ''A Máquina'' também assina o texto do espetáculo, junto ao marido.
A peça estreou há quase três meses, em São Paulo e já atravessa uma turnê nacional que passou por Recife, Belo Horizonte, Porto Alegre e Brasília. Em quase todos os lugares, foi preciso encontrar tempo e espaço para uma sessão extra. ''A receptividade do espetáculo está sendo ótima'', alegra-se João Falcão. Em entrevista, por telefone, à Folha2 , ele avisa que o espetáculo é diferente do que se pode esperar de um musical.
''Cambaio'', que literalmente significa manco, de pernas tortas, começou a ser concebido no ano passado. Considerando os nomes que assinam o espetáculo, ele deu certo antes de estrear. O processo de criação é ressaltado pelo diretor. ''Foi um trabalho de experimentação desde a concepção da idéia''. E se esse princípio está presente desde o processo embrionário de ''Cambaio'', o processo de maturidade do espetáculo seguiu os mesmos passos.
A escolha do elenco foi realizada a partir desse princípio. Foram selecionados 18 atores quase anônimos entre mais de quatro mil candidatos de todo Brasil. Os jovens atores fizeram parte da criação do espetáculo, que foi concebido de acordo com as possibilidades cênicas de cada um. Durante três meses, eles ensaiaram com toda a experiente trupe. ''Foi um período em que estávamos equalizando as habilidades do grupo'', conta o diretor.
A estética musical de ''Cambaio'' exige muito dos atores e a experiência e bagagem diversificada deles contribuiu para que o espetáculo fosse ''se construindo''. Falcão diz que aproveitou a disponibilidade e falta de vícios do grupo heterogêneo para criar um trabalho bastante peculiar. E está satisfeito. ''Descobrimos o caminho'', ressalta. Não que seja uma fórmula, para deixar bem claro. Mas se o espetáculo tivesse uma bula, a recomendação seria ''assistir sem expectativas e com o coração aberto''.
Falcão enfatiza que, desde que estreou, ''Cambaio'' tem uma característica: está vivo. O que significa que a peça amadurece a cada apresentação. ''Meus espetáculos sempre mudam com o decorrer do tempo'', comenta. ''O teatro não é como uma edição de um livro ou filme, que está fadado a ser o mesmo em todas as apresentações''. Para o diretor de ''A Dona da História'' e ''Uma Noite na Lua'' essa é uma maneira de aprimorar sempre os espetáculos teatrais.
A história da peça é centrada em três personagens, um cambista (o Rato), um popstar (o Cara) e uma fã (a Bela), que se conhecem em meio de uma atmosfera lírica e vivem experiêcias amorosas capazes de tocar o coração e fazer com que o mais desajeitado serzinho de identifique. As sete composições de Chico Buarque e Edu Lobo permeiam o enredo. São ritmos diferenciados que vão da valsa ao rock, sempre com uma estética pop, calcada na direção musical de Lenine. ''O público jovem se identifica'', diz Falcão.
Mas ele avisa que a estética da peça é bem diferente do disco homônimo lançado pela BMG. ''No espetáculo, são 18 pessoas executando as canções. A sonoridade é outra'', revela. Falcão, que também assina ao figurino e cenário da peça, costuma acompanhar a turnê de seus espetáculos. Em Curitiba não será diferente, mas depois da apresentação promete se dedicar a um novo projeto: a adaptação para o cinema do romance ''A Máquina'', que ele já adaptou para o teatro.
q ''Cambaio'', de João Falcão. Letras de Chico Buarque e músicas de Edu Lobo. Direção musical de Lenine. Texto de João Falcão e Adriana Falcão. Hoje, no Guairão, em Curitiba, às 19 horas. Ingresso a R$ 25 (preço único)


