Um espetáculo para os olhos
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Omar Godoy<br> Equipe da Folha 
Com mais de um mês de atraso em relação ao mercado internacional, ''Alice no País das Maravilhas' finalmente chega hoje ao Brasil. E estreia com grande expectativa do público, graças a uma campanha publicitária maciça e ao apelo do formato 3D, popularizado com ''Avatar''. Não à toa, praticamente um terço das cópias distribuídas no país devem ser vistas com os óculos especiais.
Mas não espere que o filme do diretor Tim Burton tenha a mesma profundidade e o realismo da selva de Pandora. Afinal, ''Alice'' não é um projeto originalmente concebido no sistema tridimensional, como a obra de James Cameron. Foi apenas adaptado, posteriormente, para o 3D, o que não o difere muito de outros títulos similares exibidos recentemente.
Essa decisão oportuna (para não dizer oportunista), no entanto, não tira os méritos de Burton, que impõe sua estética dark à fábula escrita por Lewis Carroll no século 19. Como, aliás, é de seu feitio. De ''Batman'' (1989) a ''A Fantástica Fábrica de Chocolate'' (2005), o cineasta se especializou em releituras marcadas por um visual sombrio e extravagante. E aqui não é diferente.
Ou seja: ''Alice'' é mesmo um espetáculo para os olhos, com ou sem óculos 3D. O problema é que sua concepção artística firme e coerente não é acompanhada pelo roteiro. Ao contrário. O texto, assinado por Linda Woolverton (de ''A Bela e a Fera'' e ''O Rei Leão''), neutraliza todas as nuances da história original. Ao ponto de transformar em maniqueísmo o que era ambíguo nos livros de Carroll. Basta dizer que a noção de bem e mal simplesmente não aparece - ou, no mínimo, é confusa - em ''Aventuras de Alice no País das Maravilhas'' (1865) e ''Através do Espelho e o que Alice Encontrou por Lá'' (1872).
Woolverton condensou as duas obras e retratou a protagonista com 19 anos, em crise por não se encaixar nos padrões rígidos da sociedade vitoriana. Em busca da própria identidade, Alice foge de uma festa e vai parar no mundo subterrâneo que conheceu quando ainda era criança. De volta ao ''país das maravilhas'', a personagem (vivida pela novata Mia Wasikowska) encontra uma galeria de figuras estranhas, como a Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter) e o Chapeleiro Louco (Johnny Depp). Ambos serão os pivôs de um conflito que ela terá de resolver.
No saldo final, ''Alice no País das Maravilhas'' se basta como filme ''família'' e diversão para os sentidos. Mas, ainda assim, é uma adaptação um tanto vazia para uma história tão complexa e repleta de significados.


