Um espetáculo memorável
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 28 de novembro de 1996
Antônio Mariano Júnior 
Na platéia, gente de todas as cores, cifras monetárias, patentes e elegância. Que chegaram com bastante antecedência para assistir ao concerto comemorativo dos 100 anos de fundação da Banda Sinfônica do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, realizado no último domingo no Teatro Municipal da capital carioca. O burburinho do ambiente só foi domado quando o maestro Silvino José Lemos ergueu a batuta para reger os 80 músicos da sua corporação. A partir desse gesto, o silêncio e a reverência tomaram conta do belo teatro. E com justa razão.
Afinal, tratava-se de um concerto que marcava o centenário de uma das bandas sinfônicas mais populares do Brasil, que sempre manteve um rigoroso critério de seleção de repertório e músicos. Não bastasse isso, no palco e também em parte dos balcões do teatro, um coro de cerca de 500 vozes pertencentes a 35 coros convidados, entre eles o Madrigal de Londrina.
A primeira parte do programa foi regida integralmente pelo maestro Silvino Lemos, atual regente da Banda Sinfônica. No programa, obras de Anacleto de Medeiros, organizador e primeiro regente da corporação, como Araribóia, Lídia, Os Boêmios, Terna Saudade e Buquet, que teve o belíssimo solo do trompetista Ozéas Cardoso. Foram executadas também Cem Anos de Glória (José Ribamar Serra e Silva), Sinfonia nº5 , 4º movimento (Shostakovich) e a primeira audição mundial de Divertimento Brasileiro, da maestrina Antônia Sarcina, que faz citações de Tico-Tico no Fubá e algumas frases musicais do Hino Nacional do Brasil e da Itália.
Mas foi na segunda parte que o públicou se rendeu definitivamente ao concerto. E a razão pode ser atribuída à escolha de um repertório mais popular e que contou com a participação do grande coral e de cantores líricos. A abertura foi feita pelo maestro Othônio Benvenuto, do Coro Madrigal de Londrina. Sob sua batuta, a corporação executou a sinfonia da ópera O Guarani (Carlos Gomes) e Dança do Chico Rei com a Rainha Ginga (Francisco Mignone).
Com o coral, Benvenuto regeu Va Piensiero, um dos pontos mais altos do concerto. Os aplausos foram tantos que o maestro retornou ao palco para repetir a peça. Em seguida, foi a vez da mezzo soprano Aurea Guaraná cantar a ária habanera da ópera Carmen (Bizet), com regência do maestro Silvino Lemos, que regeu o restante do programa.
Entretanto, coube ao tenor Nicollino Cupello fazer o público se desmanchar em emoções. Tudo porque colocou sua belíssima voz mais a serviço da emoção do que de técnicas vocais. Cuppelo cantou Nessim Dorma, da ópera Turandot, de Verdi; e Brindisi, da ópera La Traviata, também de Verdi, acompanhado da soprano Marly Spiller. Palmas e mais palmas.
O concerto do centenário da Banda Sinfônica do Corpo de Bombeiros foi, no mínimo, emocionante. Não porque comemorou uma data alusiva. Mas sim porque conseguiu se desvencilhar do lado meramente protocolar e oficial que situações desse tipo exigem ou impõem. A melhor resposta veio em forma de aplausos e bravos de quem, em especial, ajudou a manter a Banda Sinfônica ereta durante todo esse tempo: o público carioca.
Homenagem Não só a música propiciou momentos especiais durante o concerto da Banda Sinfônica do Corpo de Bombeiros. Em determinado momento, o espetáculo foi paralisado para que o maestro Othônio Benvenuto pudesse receber a medalha Carlos Gomes das mãos dos integrantes do Grande Oriente da Maçonaria do Rio de Janeiro. A entrega aconteceu depois de ele retornar ao palco para reger novamente, a pedidos, Va Pensiero.
Apesar de contar com a presença de outros ex-regentes da Banda, somente Benvenuto foi convidado a reger parte do concerto. A surpresa do maestro foi visível já que, até então, ele seria apenas homenageado com sua participação no concerto, além de poder juntar o seu coro Madrigal de Londrina ao grande coral.
O motivo da homenagem se deve ao fato de Benvenuto ter feito uma boa atuação durante os 11 anos em que esteve à frente da Banda Sinfônica. Entre as melhorias, estão o aumento do efetivo da corporação e por imprimir um repertório inclinado também para o erudito, com a participação regular de grandes solistas internacionais.


