Um espelho para a humanidade
A mitologia grega conta que a deusa Deméter, a Mãe Terra, responsabilizava-se pela fartura das colheitas no mundo e abençoava a vida nova e os ritos de matrimônio como meios de perpetuação da natureza. Distante das disputas materiais, vivia com a filha, Perséfone, na mais completa felicidade e harmonia. Um dia, esse viver tranquilo sofreu uma terrível modificação. Perséfone saiu para passear e não voltou mais. Desesperada, Deméter procurou-a em todos os lugares, sem encontrar nenhuma pista. Depois de anos de busca infrutífera, ficou sabendo ter sido sua amada filha raptada por Hades, o tenebroso senhor das trevas, que pela donzela se apaixonara perdidamente.
A dor da soberana da natureza foi grande e igualmente grande foi sua raiva, que se voltou contra os homens, recusando-se a proporcionar-lhes abundância por meio da generosidade da terra. Não adiantou à deusa saber que a filha, passado o susto inicial, estava bem em sua nova vida e era tratada com honras de rainha. Nada conseguia arrefecer sua tremenda ira e a humanidade parecia estar condenada a perecer pela fome. Contudo, graças à diplomática intervenção do deus Hermes, chegou-se a um acordo: durante 9 meses do ano, Perséfone ficaria com a mãe; nos 3 meses restantes, ela voltaria a viver com o marido. Desde então, nesse período, em que se vê de novo separada da filha, a Grande Mãe chora e lamenta e a humanidade sofre com os rigores do inverno, quando as flores desaparecem, as folhas caem e a terra se torna estéril.
Nesse mito do passado, encontra-se não só uma explicação para o ''mistério'' da desolação da natureza no inverno, como uma imagem arquetípica do sofrimento causado pela não aceitação das mudanças que fazem parte da vida. Da mesma forma que a Grande Mãe dentro de nós é capaz de estimular a criação, ensinando-nos, assim como ocorre na natureza, a ter paciência para esperar até o momento em que os frutos estejam maduros e prontos para florescer; nos alerta igualmente para os riscos do apego excessivo, que traz rancores e mágoas quando ocorrem rupturas e separações.
Por outro lado, Perséfone, que foi tirada do aconchego familiar para o mundo desconhecido, mas fascinante do deus Hades, retrata o processo da puberdade, quando o jovem se desvincula da segurança proporcionada pelos pais e se despede da inocência de sua infância, para caminhar em direção às responsabilidades da fase adulta. Analisado em nível mais sutil, o mito de Perséfone nos lembra também os reiterados processos de mudança que experimentamos ao longo da vida, quando conseguimos passar de um ponto de vista infantil e inocente para outro, mais maduro e desafiador.
A história de Deméter e Perséfone nos leva ainda a conhecer Hades, o senhor absoluto das trevas, que simboliza a morte, pois uma vez que a alma entrasse em seu reino, ninguém, nem mesmo Zeus - o rei dos deuses - poderia tirá-la dali. Como arquétipo - uma imagem que faz sentido para todos os seres humanos -, Hades simboliza aquilo que experimentamos com todos os finais - a dor, o luto, o recolhimento - para que, passado o período de reclusão e de depuração interna, tenhamos condições de começar um novo ciclo de vida. Os processos de finalização, no entanto, nem sempre estão ligados a algo doloroso. O casamento ou o nascimento de uma criança indicam igualmente que uma antiga forma de vida está morrendo, para dar lugar a outra. Os mais variados rituais em todo mundo, que celebram festivamente esses acontecimentos, têm justamente o sentido de nos lembrar dessa ''morte'' e de nos conscientizar sobre o momento da passagem, de forma que possamos ''renascer'' com entusiasmo e disposição para enfrentar o sempre assustador desconhecido.(A.S.)





