Um espelho da vida
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 04 de agosto de 2011
Rafael Ceribelli <br> Reportagem Local 
Uma fascinante reflexão emocional, filosófica e existencial, o longa ''Cópia Fiel'' - que estreia hoje na programação do Cine Com-tour UEL - é mais um exemplar maravilhoso do cineasta iraniano Abbas Kiarostami, referência para o 'novo cinema' e que nunca decepciona em inovar na montagem e narrativa de seus filmes.
O início do longa acontece em uma coletiva de imprensa do escritor inglês James Miller (William Shimell), que está lançando na Itália o livro ''Cópia Fiel'', obra que analisa as diferenças de valor e de percepção entre um objeto artístico considerado 'original' e de uma 'cópia'; assistindo na primeira fila, a bela Elle (Juliette Binoche, extraordinária) acompanha a explicação atentamente, mas precisa ir embora por insistência de seu filho. Antes de partir, ela deixa o seu cartão de visitas.
Mais tarde, James faz uma visita à galeria de Elle, e os dois saem para um passeio de carro, pegando a estrada em direção a um pequeno vilarejo da Toscana. Filmado de maneira não-convencional, com poucos cortes e o mínimo de elipse temporal, o espectador viaja junto com os personagens, e vai desvendando gradualmente a personalidade de cada um.
De maneira sutil, o cineasta envolve o espectador dentro de um brilhante quebra-cabeças, cheio de perguntas: os dois já se conheciam? Eles já foram um casal ou estão apenas interpretando, inspirados pelo caráter romântico da vila italiana? De onde surgem seus conflitos emocionais? Com sinais ambíguos, a narrativa sempre transita entre diversas interpretações.
É interessante notar que as respostas para essas questões, no fim, acabam perdendo importância devido às reflexões que o filme desenvolve, tendo como pano de fundo o relacionamento (ou não-relacionamento) dos personagens. Através da câmera de Kiarostami, acompanhamos um longo passeio - turístico e emocional - por entre as vielas da Toscana, e somos facilmente envolvidos pelas conversas do casal sobre o amor, o abandono, a vida e a morte.
Amparado por atuações fantásticas e diálogos geniais, todos os elementos em ''Cópia Fiel'' remetem ao problema da comunicação, apontando o abismo que existe em um relacionamento entre duas pessoas que, apesar de ainda se amarem, já apagaram há muito tempo o fogo da paixão. Em certo ponto da caminhada, James cita um pequeno poema persa: ''As árvores sem folhas. Quem ousa dizer que não são belas?''. É um recado para o espectador: pelas lentes de Kiarostami, a crise e o fim também são repletos de beleza.


