Um especialista em folclore
Como a língua tupi despertou seu interesse?
Sou descendente de tupis, meu avô começou essa história. Deu nome tupi para seu filho, que deu nome tupi para seu filho, que deu nome tupi para sua filha. Eu automaticamente traduzo tudo para essa língua, a que deveríamos falar, a verdadeira língua brasileira, que deveria ser ensinada na escola. Uma língua que morre é uma página da história jogada no lixo. Mas é sempre assim, a cultura maior abarca a menor e foi o que aconteceu aqui, impuseram a lusitana. Mas a presença da língua tupi no Brasil é muito forte. Paraná (rio grande), Curitiba (muito pinhão), Guaratuba (muito pássaro) são nomes de origem tupi. Vassoura, peteca, jacaré, arara, bichano, jaguar, tucano, os nomes tupis estão por todo lugar e as pessoas não sabem disso.Adriane Perin
Especial para a Folha
O curitibano Inami Custódio Pinto é, indiscutivelmente, um professor. Conversa como quem ensina, não quer que seu interlocutor saia da sala com nenhuma dúvida. E tem vários assuntos para tratar pois é pesquisador do folclore paranaense sendo talvez o maior especialista no mundo em fandango, e dá aulas no Conservatório de MPB de Curitiba ensinando, entre outras coisas, a língua tupi.
Minucioso nos detalhes e com voz calma começa vários assuntos, mas em alguns momentos parece não querer mesmo relembrar certas passagens. Em outros, recorre à mulher para se lembrar.
Inami tem hoje 68 anos, mas decidiu cedo entender a si mesmo buscando suas origens. Origem que carrega no nome com orgulho: Inami significa água azul em tupi. O pai chamava-se Inamá (água verde) e uma das filhas foi batizada de Inara (água cristalina). A curiosidade, aguçada pela família, talvez tenha começado aos nove anos quando morava em Santa Catarina.
Em Paranaguá, o garoto ouvia o bater de tamancos que embalava o fandango na Ilha dos Valadares. Queria mostrar para Santa Catarina que o Paraná também tinha um folclore tão rico quanto o boi mamão, catumbi ou a ratoeira que eu brincava lá.
Albari RosaTamancos e violas usadas no
fandango decoram a sala de trabalho
de Inami Pinto Custódio, um especialista
em tradições culturaisE estudou muito. A Faculdade de Educação Artística e a pós-graduação em arte-educação iniciaram um extenso currículo, com a página de atividades extracurriculares especialmente rica. Cursos de tupi (a língua que deveríamos falar, é a verdadeira língua brasileira), arqueologia, língua portuguesa, geografia, história do Brasil, serigrafia, folclore são alguns dos quais participou.
Eu tinha que estudar os costumes para conhecer a origem do meu povo e de mim mesmo, diz. Para isso, chegou a morar no Xingu por cinco anos, ao lado do sertanista Orlando Villas Boas. Além disso teve 80 composições editadas e gravadas por nomes como Irmãs Castro, Albertinho Fortuna, Cyd Gray e fez a principal música, João Ninguém, da trilha do filme Meu Destino em Suas Mãos, dirigido por José Mojica Marins, com o ator Frankito, em 1962. Também é autor do hino do Jubileu de Prata de Londrina.
Sua atuação foi um marco na música paranaense. Como representante da gravadora Copacabana no Paraná, Inami produziu o primeiro LP de um artista paranaense, Ai Saudade, com Os Calouros do Ritmo, que tinha músicas do próprio Inami. É, desde a década de 40, um compositor de reconhecimento nacional. Fiz tudo para mostrar às autoridades o que se pode fazer, mesmo só, conta.
Hoje em dia, sem condições de sobreviver com a aposentadoria, Inami divide sua rotina entre o seu condomínio onde conversa amigavelmente com o porteiro que chama de anjo da guarda, e as aulas que dá três vezes por semana no Conservatório de MPB. Ali ele ensina melodia, danças folclóricas em geral, teatro, literatura. Conforme me procuram eu ensino. Sou um assessor de assuntos culturais! Tenho contratos semestrais que se não forem renovados fico desempregado.
A procura pelas aulas de tupi são cada vez mais raras, geralmente são estrangeiros interessados no Brasil. Quis dar cultura para o povo, por isso estudei tanto. Hoje sinto que nada valeu, apesar de achar que toda luta vale algo, desabafa. Estaria escrevendo se não precisasse levantar dinheiro para sobreviver. A seguir trechos da entrevista que Inami deu à Folha 2 .





