Um espaço para poemas inéditos
''No princípio era o verbo. Depois, veio o sujeito e os outros predicados: os objetos, os adjuntos, os complementos, os agentes, essas coisas. E Deus ficou contente. Era a primeira oração''. Nessa observação do escritor Eno Teodoro Wanke, ao que tudo indica, Deus ficou contente, mas não os poetas. Estes, deram início à interminável luta com as palavras, a luta mais vã, conforme assinalou Carlos Drummond de Andrade. Nessa segunda edição da página ''Versus'', foram reunidos poemas inéditos que apresentam como tema a relação do poeta com seu ofício. Ao lançar a Versus, a Folha 2 recebeu trabalhos de poetas de todo o Paraná, sinalizando que as gavetas foram remexidas. Os guardados poéticos de Reinel Bento Munhoz Albano e Donato Parisotto, de Londrina, e Fábio Massao Yabushita, de Curitiba, têm em comum, além da maceração angustiante dos versos, o sonho de publicar o primeiro livro. Produção farta, eles garantem. No rastro dos inéditos, o poema da consagrada Adélia Prado revela a íntima relação entre o divino e a poesia. Queremos mostrar ao leitor como os poetas, novos ou reconhecidos, trabalham um mesmo tema, navegando o rio inesgotável das palavras. (Francelino França, de Londrina)
A Formalística
Adélia Prado
O poeta cerebral tomou café sem açúcar
e foi pro gabinete concentrar-se.
Seu lápis é um bisturi
que ela afia na pedra,
na pedra calcinada das palavras,
imagem que elegeu porque ama a dificuldade,
o efeito respeitoso que produz
seu trato com o dicionário.
Faz três horas já que estuma as musas.
O dia arde. Seu prepúcio coça.
Daqui a pouco começam a fosforecer coisas no mato.
A serva de Deus sai de sua cela à noite
e caminha na estrada,
passeia porque Deus quis passear
e ela caminha.
O jovem poeta,
fedendo a suicídio e glória,
rouba de todos nós e nem assina:
'Deus é impecável'.
As rãs pulam sobressaltadas
e o pelejador não entende,
quer escrever as coisas com as palavras.





