UM ESCRITOR ON-LINE
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 29 de novembro de 2000
Jackeline Seglin De Londrina 
Mário Prata fala da experiência de conceber o livro Os Anjos de Badaró, através da Internet. Ele está na cidade para ministrar palestra a convite do Festival Internacional de Londrina
Durante seis meses, ele escreveu um livro inteiro pela Internet com acompanhamento on-line feito por milhares de internautas. Foram 16 horas por dia, diante de quatro computadores, com palpites e sugestões de leitores, que resultaram no livro Os Anos de Badaró, uma comédia policial lançada pela editora Objetiva. O escritor, dramaturgo e jornalista Mário Prata, mineiro radicado em São Paulo, está em Londrina para contar como foi sua experiência de produção na Rede.
Ele foi convidado pelo Festival Internacional de Londrina para falar sobre Literatura & Internet, uma conferência sobre processo de criação, que faz parte do lançamento do Filo 2001. A palestra acontece hoje, das 15 às 17 horas, no auditório da Brasil Soka Gakkai Internacional. Prata, hoje com 54 anos, esteve na cidade pela última vez em 1996, também a convite do evento.
Em entrevista coletiva, ele contou que um dos motivos que o levaram a escrever Os Anjos de Badaró pela Internet foi dinheiro. Não sabia exatamente como. Iria escrever normalmente pela Objetiva e também queria fazer alguma coisa pela Internet. Mas eu queria vida, lembra. Até que no dia 11 de fevereiro, data de seu aniversário, a irmã de sua namorada perguntou se podia ir até sua casa para vê-lo escrever. Foi então que surgiu a idéia. O escritor anotou num guardanapo para não esquecer: site ao vivo. Não sabia que ninguém tinha feito isso no mundo antes. Para montar o projeto, procurou profissionais especializados e vendeu a idéia para o portal Terra. Desde então, minha vida foi maravilhosamente horrorosa, diverte-se.
Um mês depois do início da produção, a correria apertou e Prata decidiu tirar o escritório de dentro de sua casa. Morava e trabalhava no mesmo lugar e chegava a ficar 20 horas no computador. Não dava. Aluguei um apartamento no mesmo prédio. Ao invés de pegar um táxi para ir ao trabalho, pego o elevador, brinca.
O fato do escritor expor um momento particular o da criação ao leitor não foi motivo de incômodo. Pelo menos no que dizia respeito à sua imagem transmitida pela webcam instalada em sua frente. Tinha preocupação de não usar o dedo no nariz, avisa. Depois, a preocupação foi com a luz. Quase tive que fazer maquiagem por causa da imagem. Quanto às inúmeras pessoas assistindo ao processo (Prata deixava a câmera ligada parte do tempo), ele revela que no primeiro dia do trabalho teve um choque. Quase 16 mil pessoas estavam acompanhando. Mas nunca senti que tinha gente me assistindo. Já a presença física seria diferente.
Quanto à produção do texto, compartilhada em milhares de telas de computador, Mário Prata confessa sentir-se mais à vontade. Escrevi esse livro como escreveria normalmente. Criei uma intimidade muito grande porque escrevia para pessoas que gostavam de mim. Quando cometia algum erro, as pessoas davam toques. No começo, era o maior respeito: me chamavam de deus, guru... no final, já estavam me mandando à merda. Foi legal as pessoas perceberam a normalidade do escritor, avalia.
Em tempos em que a censura anda rondando novamente a mídia brasileira, Mário Prata negou qualquer problema desse tipo. A não ser alguns cortes sugeridos pelos próprios leitores. Na primeira cheirada de coca que coloquei no texto, uma mãe me ligou. Nunca mais o cara cheirou. E a segunda coisa era o meu visual de fumante, o que incomodava certas pessoas. Eu fumo muito e cheguei a fazer isso escondido atrás da câmera.
Prata acredita que Os Anjos de Badaró é seu primeiro livro de verdade, com começo, meio e fim. O resto era crônica. Esse livro exigiu um fôlego muito grande. Não sabia que era tão difícil, relembra o autor, que em meio a tanto trabalho chegou a esquecer de entregar as crônicas do Estadão e perdeu até a namorada. Escrever este livro foi mais desgastante do que escrever novelas, confessa o autor de produções como Estúpido Cupido (76) e Sem Lenço, Sem Documento (77).
A trama de Os Anjos de Badaró gira em torno da história do ginecologista Ozanan Badaró, que enriqueceu depois de tornar-se agenciador de garotas de programa, mas comete um erro ao apaixonar-se por uma delas. O personagem principal é um veterano repórter policial que se passa ao papel de detetive. Com a produção interativa na Internet, o livro sofreu modificações apesar de Prata frisar que o autor da obra é ele. O que me pirou foi descobrir intimamente a Internet. O contrato com o Terra previa um acesso mínimo de 300 pessoas por dia. Esse número chegou a 5.000 num único dia e no final manteve uma média de 2.500/dia. No total, 400 mil acessos e quase um milhão de palpites. Cerca de 3% deles, de fora do Brasil.
Os internautas davam suas idéias e sugestões no site www.marioprataonline.com.br ao clicar a página palpite. A cumplicidade e a troca de idéias entre os anjos de Prata foi crescendo, a ponto de um grupo criar um site próprio com trilha sonora não oficial do livro, rádio palpite e até Encontro Nacional dos Anjos de Prata. Pude ter o perfil do meu leitor e essas mesmas pessoas perceberam que eu era uma pessoa normal.
Mas nem tudo era tranquilo na relação com os leitores. O escritor conta que, a certa altura, as pessoas cobravam a sua ausência na tela. Deixei claro que aquilo ali não era novela. Não era um capítulo por dia. Prata relata ainda que muita gente ficou decepcionada com a produção e começou a mandar outros textos para o autor. Foi aí que ele resolveu fazer um concurso de contos com dinheiro do próprio bolso, como frisa o autor, já que o Terra não acreditou no projeto. Esse sim é o resultado do processo. Os Anjos de Badaró eu escreveria de qualquer forma. Foram 2.357 crônicas enviadas, das quais, 1% eram muito boas. Isso mostrou que ter talento não é um bicho de sete cabeças, diz.
Os internautas não interferiram na trama em si. Adoravam pedir para não matar essa ou acabar com aquela outra personagem. Já um clima inusitado que envolveu a comédia policial surpreendeu até mesmo o autor. O livro ficou mais romântico que eu esperava. Isso deveu-se aos internautas. Não que eles decidiram, mas me davam toques importantes, diz o autor, que trata os palpiteiros como anjos da guarda.
O que talvez tenha aborrecido Mário Prata nos seis meses em que trabalhou online foi exatamente a convivência com experts da web fato que o faz reafirmar que sua experiência foi a primeira e única. Esses Billgatezinhos, presunçosos, arrogantes... O projeto era meu e eles é que tinham o poder de dizer o que podia ou não. E eu tinha que conviver com eles. É um poder que não sei como vai ser controlado. Não vou fazer outro livro assim. Não quero contato com esses micreiros. Nem home-page quero mais. São pessoas que, primeiro não confio e, segundo, tenho medo. São perigosos. E o mundo vai ficar na mão deles.
Para Mário Prata, a única relação entre Internet e literatura é o exercício da língua, do ler e escrever. Nenhuma outra geração teve esse exercício. Por mais que tenha muita porcaria na Internet, as pessoas estão sempre lendo e escrevendo. Prova disso é o livro de crônicas, o grande resultado do meu trabalho, avalia. Já a onda dos e-books (os livros eletrônicos) está enterrada na opinião do escritor. A literatura quis tirar uma casquinha desse boom na Internet. Mas não deu certo. A Internet é boa para coisas rápidas. Não concorre com o papel. O e-book nasceu morto. Prata cita como exemplo seu próprio trabalho. O texto completo de Os Anjos de Badaró ficou quatro dias no site e o número de acessos não chegou a 400. Nem sei se chegaram a copiar em papel. Muita gente perdeu dinheiro achando que a Internet era um canal literário.
Literatura & Internet conferência com o escritor, dramaturgo e jornalista Mário Prata. Hoje, às 15 horas, no auditório da Brasil Soka Gakkai Internacional (Rua Mato Grosso, 585, esquina com rua Pará), em Londrina. Entrada gratuita. O evento faz parte do lançamento do Filo 2001.


