UM ESCRITOR ENTRE DOIS TRÓPICOS
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de junho de 2000
Paulo Briguet De Londrina 
Miller não dá moleza.
Ele era um escritor confessional. As melhores obras de Henry V. Miller falam sobre a vida de Henry V. Miller, tintim por tintim. No passado, Santo Agostinho e Rousseau tinham feito a mesma coisa. Foram chamados de mentirosos, e Miller não escapou da acusação. E daí? O importante é que Miller serviu-se da liberdade da ficção para recriar a própria vida e oferecer um mundo à parte, cheio de amor, sexo, miséria, alegria, amizade, amargura, fé, poder, beleza, morte, poesia. Afinal, uma obra de arte só tem a obrigação de ser coerente consigo mesma.
Autor ou personagem, mentiroso ou veraz, bon vivant ou sofredor, pornógrafo ou santo, Câncer ou Capricórnio, o Miller de verdade está nos livros, e sempre foi uma contradição em essência, como ele mesmo disse. Nasceu um dia depois do Natal e teve uma vida marcada pelo Complexo de Crucificação: incorporava todos os pecados do mundo aos seus sofrimentos pessoais. No entanto, seu lema era Sempre alegre e vivo!, frase que repetia em livros, cafés, inferninhos e lares.
A relação de Miller com Deus era intensa, mas a fé do autor passou por mutações ao longo dos anos. Em Trópico de Capricórnio, o narrador diz que se existisse Deus (...), eu O enfrentaria calmamente e cuspiria em Sua cara. Mais tarde Miller declarou: (...) o importante é que Deus existe, e que todos fazemos parte dEle. Também observou, em um ensaio de A Sabedoria do Coração: A pergunta não é se você acredita em Deus, mas se Deus acredita em você.
Pouco antes de completar 40 anos, indeciso sobre o rumo a tomar na vida, Miller chegou ao absurdo de acreditar que nenhum homem havia sofrido tanto quanto ele. Seu Complexo de Crucificação era uma grande tempestade de masoquismo. Apaixonava-se por mulheres que o traíam, desprezavam, humilhavam. Sapatear sobre os ossos de Miller era a melhor forma de uma mulher conquistá-lo. Em 1923, conheceu em Nova York a dançarina de salão June Mansfield, bela e fatal. Atraído pelo sofrimento, Miller uniu-se de mente, coração e membro à mulher de caráter duvidoso. Crucificado eternamente pela força de June, Miller a imortalizaria como a inesquecível personagem Mona.
June incentivou Miller a deixar seu emprego estável (gerente de companhia telegráfica) para que ele se dedicasse só à literatura. Enquanto a mulher arrumava dinheiro com amantes de variadas cores, religiões e classes sociais, meio de vida que provocava violentas brigas de ciúme e recriminações insuportavelmente diárias entre o casal, Miller arrancava alguns trocados de amigos e conhecidos. Nas noites, enquanto June não voltava do singular batente, Miller martelava com desespero a máquina de escrever na cozinha, tentando encontrar um estilo. Fracassar como escritor seria fracassar como homem, reconheceu certa vez.
E Miller conseguiu muitas laudas, brigas, livros ruins, ataques de desespero e colapsos mentais depois. Trópico de Câncer, lançado em 1934, é um dos maiores romances do século XX. A obra trata do período em que Miller, já separado de June, mas não livre dela, tomou o caminho aberto por muitos outros escritores americanos das gerações anteriores: Paris. A presença físico-espiritual de June é reconhecível em todo o livro, mesmo que ela não esteja em cena.
Os monólogos de Miller
são verdadeiras orações
A vida de Henry Miller pode ter sido um vale de lágrimas, mas também foi um planalto de farra, vagabundagem, sexo e risadas. Trópico de Câncer é uma história de luta pela sobrevivência, malandragem e macetes mil para conseguir a bóia de cada dia, um gole de vinho, às vezes num puteiro, de vez em quando na casa de um amigo emigrado russo que acabou de receber uma bolada, terminando a noite na fumaça de um inferninho parisiense, ao lado de uma senhora da qual não se sabe o nome.
Ao acompanhar as perambulações do americano Miller pelos antros de Paris, o leitor é apresentado a uma galeria de tipos boêmios, priápicos, exilados e marginais. Servindo de contraponto à apresentação dessa fauna, há os monólogos do autor, nos quais imagens e eventos do cotidiano se transformam em viagens às profundezas do eu recôndito, numa avalanche poética de dimensões místicas.
Em trecho memorável do romance, Miller leva um rapaz recém-chegado da Índia, discípulo de Gandhi, a um prostíbulo. Cada um vai para o quarto com uma dama. O indiano, que ignora a função do bidê, usa-o como privada, para horror da prostituta. A merda do indiano boiando no bidê; um quadro de Matisse transformado em versos coloridos; a vulva comparada à cidade; a mulher furiosa por Miller ter ejaculado em seu vestido verde novo qualquer figura ou ação, por mais chula que o mundo a considere, pode ser o ponto de partida para Miller desfigurar a alma do tempo, em uma narrativa de alta tensão, um canto de anarquia numa civilização prestes a ser devastada pelos horrores em escala industrial da Segunda Guerra. Os monólogos de Miller são verdadeiras orações. A força da linguagem em Trópico de Câncer sobrevive mais de 60 anos depois de sua publicação. Miller escreve em um estilo direto - na veia, como se diz hoje. As frases são de uma vitalidade aterradora. Embora transmita a impressão de um fluxo caudaloso, a prosa de Miller está longe de ser descuidada. Ele se orgulhava de escrever rapidamente, mas o ritmo da narrativa jamais compromete a força das idéias, a graça dos personagens, a riqueza das imagens, a onipresença de um universo complexo e vivo, qualidades que lhe valeram o respeito e admiração de grandes mestres contemporâneos como T. S. Eliot e Edmund Wilson. Miller tem uma voz, e avisa no início de Trópico de Câncer: Vou cantar para você, um pouco desafinado talvez, mas vou cantar. Cantarei enquanto você coaxa, dançarei sobre seu cadáver sujo...
Depois de ouvir a canção de Miller, os tímpanos e o cérebro nunca mais serão os mesmos. As primeiras quarenta ou cinquenta páginas de Trópico de Capricórnio (1939) arrebatam o leitor com a força de um bombardeio moral. Ao americanismo progressista, o escritor opõe um soturno e dilacerante pessimismo entre os arranha-céus que despontavam em Nova York no início do século. Logo no primeiro capítulo de Capricórnio, um sonoro peido no velório de um amigo de infância demonstra que Miller não estava nem aí para as formalidades, normas, rigores e pesadelos mecânicos do Império Americano. Mesmo antes de decidir-se pelo ofício de escritor, Miller já se sentia um deserdado moral na civilização em que nasceu. Até chegar à literatura, Miller foi auxiliar de alfaiate, auxiliar de pastor, açougueiro, revisor, datilógrafo, porteiro, leiteiro, coveiro, andarilho e principalmente vagabundo. Mas só se encontraria diante da página em branco.
Suas descrições sexuais
são soberbas e cruas
Capricórnio focaliza o período cronologicamente anterior a Paris, em que Miller trabalhou como gerente de pessoal na Companhia Telegráfica Western Union (no livro, Companhia Telegráfica Cosmodemoníaca da América), antes de se refugiar em Paris. Com humor e compaixão, ele descreve tipos deserdados que vinham de todas as partes do mundo para tentar a sorte nos Estados Unidos, ou aqueles filhos da pátria expelidos pelo sistema, cuja última esperança era trabalhar como mensageiros. O livro é inferior a Câncer porque, na medida em que avança, os monólogos ficam extensos, às vezes chatos, quase sempre inferiores à obra-gêmea, mas ainda assim fortes o suficiente para serem lidos e relidos com o prazer de um orgasmo.
As descrições sexuais em Câncer e Capricórnio são soberbas e cruas. Nada têm de apelativo, embora o mercado sempre queira explorar o lado erótico em suas obras para vender mais e mais (há mulheres nuas na capa da maioria das reedições brasileiras). Aos que procuram Miller exclusivamente para encontrar pornografia, eu recomendo um pulinho na locadora de filmes adultos. É mais barato e menos perigoso.
Miller fala do sexo como fala da vida, sem nada a esconder. Aprendeu a virtude da franqueza com seus mestres da devassidão na alma humana: Dostoiévski, Knut Hamsun, Nietzsche, Sade e D.H. Lawrence.
Trópico de Câncer, que fez grande sucesso na Europa, ficou proibido por 30 anos nos Estados Unidos, reforçando a maldição de Miller em sua própria terra. O escritor antecipou em várias décadas a chamada revolução sexual, aliás menosprezada por ele. Em nossos tempos da doutrina politicamente correta, ele seria crucificado em praça pública por certas rodinhas universitárias. Anarquista por convicção e decididamente alheio a qualquer atuação política, Miller várias vezes teve que se defender das acusações sobre o caráter pornográfico de sua obra, até mesmo diante do Tribunal de Oslo (Noruega), pelo qual foi enquadrado em 97 itens de imoralidade, conforme se lê em Henry Miller Vida e Obra, de Hermilo Borba Filho.
Convencido da hipocrisia dos juízes de Oslo, sugeriu o próprio veredicto em carta:
Culpado! Culpado pelos 97 itens! À forca!
Sim, Miller é culpado, porque ousava chamar as coisas pelos próprios nomes, corajosamente narrando a aventura pessoal da maneira mais límpida possível. Mais uma vez, o escritor personifica a contradição em essência: onde ele via a limpidez, os magistrados do puritanismo viam a sujeira.
A grande odisséia de Miller rumo à noite do passado foi a trilogia Sexus (1949), Plexus (1953) e Nexus (1960), série que ele chamou de A Crucificação Encarnada. Distante no tempo, mas espiritualmente próximo do casamento com June Mansfield, o escritor construiu a sua maior catedral de obscenidade, no sentido mais amplo do termo. Os três livros o mais importante é Sexus não se limitam a descrever os mínimos pormenores sexuais do protagonista. Lançam luz e percorrem trevas de medo, culpa, traição, hedonismo e poder no âmago dos personagens e situações. É um amplo ajuste de contas de Miller com as penitências do passado a sua singular vingança. Nos três volumes, Henry Miller cria o Império do Eu sobre estacas de dor, ódio e melancolia. O mais impressionante e alentador, ao final da jornada, é que o escritor ainda vê um saldo de alegria de viver em todo o sofrimento da crucificação espiritual.
Filhos da revolução sexual
o procuravam como oráculo
De Miller, há muito mais, porém o jornal é pequeno, e a lista é grande. O Colosso de Marússia (o livro preferido do autor, sobre a Grécia, de 1941), Dias de Clichy (1958), Primavera Negra (1946), Pesadelo Refrigerado (1945) e as inúmeras coletâneas de ensaios mostram que o escritor aproveitou muito bem a vida. Só não escreveu mais porque, em meados da década de 60, trocou a literatura pelas artes plásticas, no último capítulo de sua vida artística.
Sempre bailando na contradição, nasceu no Leste dos EUA (Brooklyn, Nova York), morreu no Oeste (Pacific Palisades, Los Angeles). Transformado em mito, e escravizado pela própria generosidade, tinha que aguentar muitas malas, filhos da revolução sexual, que o procuravam como oráculo. Nos últimos anos, com a saúde abalada, amparado pela enésima esposa, levava as visitas ao banheiro de sua casa para que vissem a coleção de gravuras eróticas e orientais, coladas na parede de ladrilhos.
Num documentário da década de 70, que me foi emprestado por um amigo, há a imagem do velho Miller, passeando em Nova York, numa das esquinas de sua juventude, a lembrar todo o sofrimento acumulado naquele asfalto, naquelas calçadas, naqueles prédios. Depois, como sempre, Miller sorria e apertava os olhos de chinês. Terminava o filme.
Aos 20 anos de sua morte, Henry Miller está aqui ao lado. E ri do meu texto, como riu dos juízes do Tribunal de Oslo:
Não, não sou um santo graças a Deus! Sou simplesmente um homem, um homem nascido para escrever e que tomou como tema a história de sua vida. Um homem que, ao contar a história de sua vida, tornou claro que a vida é boa, rica, alegre, apesar dos altos e baixos, apesar das barreiras e obstáculos.
Agora, com licença, vou comer um belo prato de arroz e feijão.


