Se a figura mitológica de Narciso um dia morreu por se apaixonar pela própria imagem refletida na água, a plenitude da vida veio de encontro a Sebastião José Narciso exatamente quando ele se deparou com a perda total da visão, aos 28 anos, após um acidente automobilístico. Na época, fazia quatro meses que estava casado com a simpática assistente social Argéria e muitos obstáculos na vida a dois tiveram que ser vencidos para chegarem a completar 20 anos de casados e ter as duas filhas, Beatriz e Laura, 12 e 9 anos, respectivamente, que não escondem o orgulho que têm do pai especial, que agora é contador de histórias e escritor. Hoje, das 19h15 às 21 horas, ele lança a sua primeira coleção de sete livros infantis ''Coleção Engenho da Imaginatião 1'' , que faz parte do Projeto ''Engenho da Imaginação'', aprovado pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic). O evento será realizado na Rua Maringá, 1.730. As belas ilustrações são de Murilo de Oliveira, 18 anos.
Com um jeito todo especial de interagir com as crianças, Narciso simplesmente as encanta quando interpreta suas próprias histórias. Para chegar às sete que fazem parte da sua primeira coleção, reuniu a criançada do seu bairro, além das duas filhas, para passar pelo crivo crítico delas. ''Tenho 70 histórias escritas e elas tiveram que ter muita paciência...'', brincou Narciso. Parte desse mundo da fantasia pôde ser conferido pelas crianças do ensino infantil da Escola Municipal Dalva Fahl Boaventura, no Bairro Três Marcos, no Conjunto das Flores, na semana passada. Quando assume a função de contador de histórias, Sebastião vira ''Tião Balalão Cabeça de Melão''.
Com uma boa empostação vocal e gestual ágil, Narciso tira gargalhadas das crianças quando dá vida à história de ''O Bebê Veloz'', a preferida da sua filha Laura. ''Tenho muito orgulho do meu pai. Ele se vira, trabalha, anda sozinho e encanta as crianças com as histórias que cria e a sua própria história de vida'', disse Beatriz, a filha mais velha. Aliás, falar sobre a deficiência visual, enfocando as suas necessidades e potenciais, faz parte do trabalho de Narciso, que defende a igualização do deficiente.
Como contrapartida da publicação dos seus livros, ele irá fazer contação de histórias em dezenas de escolas municipais da cidade, realizando no final um debate sobre a deficiência visual. Cada escola que fizer parte dessa atividade irá receber um kit dos livros. ''Eu me aproximo das crianças, dos professores e pais com histórias lúdicas, mágicas, mas no final também abro um leque para o questionamento. Há muitas dúvidas sobre como é a vida de uma pessoa cega e precisamos falar sobre isso com naturalidade. Eles querem saber como um cego escreve, come, por exemplo'', destacou Narciso. Sobre esse tipo de dúvida, a sua filha caçula, Laura, também afirmou que é muito questionada. ''Todo mundo pergunta como é ter um pai cego e digo que é normal, ele dá bronca, conversa com a gente, passeamos juntos. Nunca senti vergonha dele e sei de cor as suas histórias.''
Sobre a maneira que escreve, ele explicou que tem um teclado comum, mas sonoro recurso viável através de um software que se chama ''Virtual Vision''. Para se locomover, o contador e escritor usa uma bengala especial para cegos e disse que não se intimida quando tem que andar de ônibus, táxi, ou até mototáxi. Após ter perdido a visão, cursou a faculdade de Sociologia na Universidade Estadual de Londrina (UEL), e preferiu usar da escrita discursiva e de provas orais do que utilizar o braile, forma de leitura em que se utiliza o tato. Dessa época, ainda guarda na memória como um dos momentos mais difíceis da sua vida pelo preconceito que encontrou no meio acadêmico.
Mesmo depois de formado, e envolvido com grupos dedicados à luta pelos direitos das pessoas com necessidades especiais hoje ele é presidente da Associação de Deficientes Visuais de Londrina (Adevilon) , Narciso deu uma guinada na sua vida. Isso aconteceu em 2001, após participar de uma oficina de contação de histórias organizada pelo Festival Internacional de Londrina (Filo) e coordenada por Fátima Café, com outros dez deficientes visuais. Desse grupo, além de Narciso, mais três se identificaram com a proposta e acabaram formando um grupo de teatro. O gosto pela escrita foi tomando força e depois de participar de oficinas de teatro ministradas pelos diretores Paulo Braz e Alessandro Antônio da Silva, ele se tornou, em 2003, o ator e co-autor da peça ''As Cidades e Os Olhos'', que ainda está sendo apresentada em festivais pelo Brasil. Em 2004, lançou ''Por Detrás dos Olhos''.

Serviço:
- Lançamento da Coleção ''Engenho da Imaginatião 1'' que reúne sete livros infantis, de Sebastião José Narciso. Hoje, das 19h15 às 21 horas, na Av. Maringá, 1.730. Cada livro custa R$ 4,50. Uma sacola com os sete livros, R$ 30,00. O material também vai ser vendido na Livrarias Porto (Shopping Catuaí 43 3294 8300), Ciranda Música, Literatura e Brinquedos (R. Jorge Velho, 190 loja 2 43 3325 6981) e Edições Humanidades (R. Espírito Santo, 1.163 sala 6 43 3336 4716). Mais informações sobre os livros podem ser obtidas pelo site www.engenhodaimaginatiao.com.br. Contato com o escritor pelo telefone (43) 3341-6106.

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