Nos anos 1960, um filme, ''Teorema'', provocou muita polêmica. É oportuno lembrá-la agora que o filme de Pier Paolo Pasolini está sendo lançado em DVD pela Versátil. Como sempre, a distribuidora capricha nos extras: galeria de fotos, biografias, texto sobre o diretor, explicando quem foi esse homem que revolucionou a cena cultural italiana daquela época.
''Teorema'' provocou escândalo ao ganhar o prêmio do Ocic, o Office Catholique Internationale du Cinéma, no Festival de Veneza de 1968. O prêmio foi contestado pelo Vaticano e olhem que o papa era Paulo VI, mais conservador do que João XXIII, mas não tão conservador quanto João Paulo II. Pasolini talvez fosse hoje excomungado pela provocação de seu teorema.
Cinéfilos sabem de cor o que está em demonstração. Um estranho, interpretado por Terence Stamp, irrompe na vida de uma família da alta burguesia. Mantém relações com o pai, a mãe, o casal de filhos e a empregada. Muda radicalmente a vida de todos.
O pai é um empresário que entrega a fábrica aos operários e sai nu pelo deserto a gritar sua angústia. A mãe libera uma sexualidade longamente reprimida e entrega-se, na rua, a garotos de programa. A filha entra em estado catatônico, o filho busca consolo na arte, mas o que produz é uma pintura abstrata que não lhe dá o que está procurando.
Só a empregada, por representar o povo, é capaz de operar o milagre. Interpretada por Laura Betti, ela retorna ao lugar em que nasceu, alimenta-se de ervas e sobe ao céu antes de ser enterrada, quando verte uma lágrima enigmática, promessa de uma difícil, mas não impossível, redenção.
''Teorema'' teve problemas com a censura do regime militar, tão ciosa na defesa dos valores familiares que o diretor estaria aviltando. Mais do que destruir a família, Pasolini talvez quisesse destruir a burguesia. Vale, a propósito, lembrar os posicionamentos críticos dos dois maiores pensadores católicos do País, na época. Gustavo Corção, o grande reacionário, proclamou alto e bom som que não vira o filme nem o veria jamais, mas baseado em informações alheias concluiu que ''Teorema'' era pornográfico e niilista, sendo representativo de um fenômeno de perversão extrema que, segundo ele, estaria corroendo uma sociedade que se encaminhava alegremente para o que chamava de 'chambardment' (a algazarra, o pernas para o ar).
Tristão de Athayde, como também se assinava Alceu de Amoroso Lima, o Dr. Alceu, viu o filme, o que já faz uma diferença e tanto. Partidário da Teologia da Libertação, católico progressista, Athayde teve a sensibilidade de entender ''Teorema'' como uma tentativa, que definiu como ''extremamente feliz e impressionante'', de traduzir o Livro do Gênese em cenas e situações de nossos dias.
Bebendo nas fontes de Sigmund Freud, Marshall McLuhan e Jacques Maritain, Athayde dissecou o filme que também chamou de ''esotérico e transcendental'', integrando o egocentrismo de Freud e o heterocentrismo de McLuhan para chegar à comovisão cristã de Maritain, coisa que só um homem de grande cultura e erudição, como ele, conseguiria fazer. E concluiu que ''Teorema'' não era niilista, como defendia Corção. Athayde via em Pasolini muito mais um revoltado do que um desesperado. E dizia que a revolta ''é o melhor caminho para a esperança''.
Essa polêmica, obviamente, não perdeu o sentido, mas ''Teorema'', de volta - e, agora, definitivamente, com a alta qualidade de imagem e som que os discos digitais oferecem -, adquire, entre toda a produção do autor, o valor de obra testamental. O próprio Pasolini talvez assim escolhesse o filme de 1968, mesmo que tenha feito muitos outros, exatamente uma dezena, até seu brutal assassinato, em 1975.

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