Um épico do Paraná
Zeca Corrêa Leite
Curitiba
A equipe técnica, elenco e figurantes de Sangue Azul, o filme que pretende de algum modo reabilitar a memória do Barão do Serro Azul, vive os momentos finais da produção que consumiu os dois últimos meses. Para o produtor Maurício Appel o empreendimento é um mergulho na alma paranaense, uma busca ao seu passado.
É uma romantização do que nós somos, da nossa identidade cultural. Precisamos saber de onde viemos, porque quando nos horrorizamos com a guerra da Iugoslávia, não imaginamos que tínhamos os mesmos cenários, ele diz. Serve também para mostrar as canalhadas do passado e comparar com as canalhadas do presente. Num final de século por que não reavaliarmos tudo isso?
Pois bem, depois de vencer o desafio, Appel começará a pensar no próximo trabalho, Sentinela do Invisível, outro longa-metragem abordando a vida de um cidadão brasileiro. Neste caso não mais será a luta envolvendo o poder, mas o lirismo do poeta gaúcho Mário Quintana. Sua vida e obra estarão estampadas na tela.
O roteiro vai se basear nas cartas de amor do homem que nunca se casou, e passou o resto da vida morando em quarto de hotel. No filme Quintana é um jovem que deixa de ser apenas tradutor de jornal para também compor versos, os mais brilhantes.
Será um período de sua vida, quando ele conhece uma mulher bem mais nova e passa a escrever para ela. Daí para frente não tem uma poesia sua que não seja retirada dessas cartas de amor, explica Appel.
O projeto está em fase embrionária, e de concreto tem somente o nome de uma atriz já convidada; o protagonista ainda não foi escolhido. Filosoficamente, porém, tem-se o traçado do que virá muita gente do Rio Grande do Sul e do Paraná. Temos por obrigação fazer o filme aqui, onde foram captados os recursos, comenta o produtor.
Se em Sangue Azul as cidades de Curitiba e Lapa servem de cenário, No filme de Mário Quintana haveria a recriação de Porto Alegre? Não. O trabalho é mais voltado à cidade de Alegrete. É um estilo deste grupo de trabalhar o Sul do Brasil, esclarece. Vamos sempre fazer coisas do Sul para fixarmos um pólo de produção aqui; esperamos que num curto espaço de tempo tenhamos uns cinco ou seis grupos, cooperativas atuando em conjunto.
Maurício Appel compara a produção de um filme com o desafio de se matar um leão. Como ele diz que cinema é uma cachaça, estaria disposto a enfrentar outros leões? Sim, tem um terceiro trabalho com roteiro pronto, e um quarto em vista. Ele não dá detalhes, conta somente que é coisa para 2002, fora do Brasil. Está preparando o roteiro.
Mas, para ele, emoção da mais pura é quando aparecem investidores no set de filmagem, querendo se somar financeiramente à obra. Isso aconteceu no transcorrer de Sangue Azul, afirma. Hoje temos incentivo fiscal, daqui a curto prazo a parceria virá no seco, no cash, porque o Brasil vai começar a apostar em produções de qualidade, em grupos de qualidade, antevê.
Hoje os grandes grupos econômicos investem nos empreendimentos imobiliários. Chegará o dia em que esses mesmos investidores apostarão na construção de uma obra cinematográfica, aguarda Appel, que colocou em cena 63 atores paranaenses e dez vindos de fora para dar tempero.
Trabalhamos 12 horas por dia, todos os dias. Valeu a pena, está valendo a pena, finaliza.





