Pouco a pouco, a DreamWorks vem tentando abocanhar uma fatia do mercado de animação até então monopolizada pelos estúdios da Disney. Criada por Steven Spielberg, Jeffrey Katzenberg e David Geffen há quatro anos, a DreamWorks já tem demonstrado poder de fogo. ‘‘Formiguinhaz’’, o desenho totalmente feito em computação e dublado por Woody Allen, já angariou mais de US$ 70 milhões, o que o coloca como a melhor bilheteria dos desenhos feitos fora da Disney.
Já com ‘‘O Príncipe do Egito’’, que estréia hoje, a DreamWorks pretende mais. ‘‘Queremos mudar a percepção do público de que desenhos servem apenas para contos de fada. A animação é apenas uma técnica a mais para se contar uma história’’, acredita o produtor executivo Katzenberg, que antes de fundar a DreamWorks foi presidente da Disney por 10 anos e responsável por sucessos como ‘‘O Rei Leão’’.
Definitivamente, ‘‘O Príncipe do Egito’’ não foi feito para crianças pequenas. Ao contrário dos clássicos Disney que sempre trazem musiquinhas alegres e personagens secundários divertidos, o desenho da DreamWorks segue quase ao pé da letra a história bíblica de Moisés. Criado pela rainha do Egito, Moisés só descobre que é hebreu na fase adulta. Atendendo a um chamado divino, lidera os hebreus para a Terra Prometida através do Mar Vermelho. Antes, porém, o Egito é assolado por 10 pragas e Moisés se desentende com o irmão, o faraó Ramsés. ‘‘Fizemos um grande épico, que é muito complicado para os pequeninos’’, assume Katzenberg.
Assim como ‘‘Formiguinhaz’’, ‘‘O Príncipe do Egito’’ foi dublado por vozes de atores conhecidos. Moisés foi feito por Val Kilmer, enquanto Ramsés ganhou a voz de Ralph Fiennes. Mas tem também Michelle Pfeiffer, Sandra Bullock, Steve Martin, Patrick Stewart, entre outros. Jeff Goldblum, de ‘‘O Mundo Perdido’’ e ‘‘A Mosca’’, cedeu seus dons vocais a Aarão, o irmão mais velho - e um tanto descrente - de Moisés. ‘‘Foi como falar numa secretária eletrônica, porque tínhamos de imaginar todas as cenas. Mas foi muito empolgante’’, conta Jeff, que até então só havia dublado um episódio de ‘‘Os Simpsons’’.
A dificuldade encontrada por Jeff tem explicação. Os personagens foram criados por mais de 350 artistas (entre animadores e técnicos), após a gravação das vozes, e baseados nos movimentos dos próprios atores. Por curiosidade, o desenvolvimento do personagem de Jeff foi supervisionado pelo animador brasileiro Fábio Lignini.
Das 1.192 cenas de ‘‘O Príncipe do Egito’’, 1.180 continham efeitos digitais. As referências para a criação delas foram as gravuras bíblicas do francês Gustave Doré, o filme ‘‘Lawrence da Arábia’’, de David Lean, e as obras de Claude Monet. Algumas sequências impressionam, como a vertiginosa corrida de bigas no início do desenho. A abertura do Mar Vermelho, assim como grande parte do desenho, tem ares de pintura, fruto da técnica desenvolvida pela Silicon Graphics para combinar elementos em três dimensões numa mesma cena, com outros em duas dimensões. ‘‘Exageramos as proporções do mar em relação aos personagens para ficar diferente de Os Dez Mandamentos’’, conta o desenhista de produção, Darek Gogol.
Como a história de Moisés é conhecida profundamente por seguidores do cristianismo, islamismo e judaísmo, a produção teve cuidado para manter a acuidade histórico-religiosa. Para tanto, foram usados como consultores mais de 360 líderes religiosos, além de arqueólogos, egiptólogos, teólogos e historiadores.
O diretor Simon Wells, de ‘‘Um Conto Americano II: Fievel Vai Para o Oeste’’, conta que foi complicado tentar conciliar tantas opiniões sobre o filme. Na cena em que Moisés se conscientiza da exploração dos escravos hebreus e mata um capataz egípcio para salvar um irmão de sangue, os produtores do desenho pensaram que seria mais atraente se usassem a própria irmã de Moisés, Míriam. Idéia rechaçada pelos rabinos consultores. ‘‘Eles discordavam de tudo. Mas concordaram que Moisés nunca poderia salvá-la porque qualquer um a teria socorrido. Fizemos do jeito deles’’, resigna-se Wells.DivulgaçãoReferências para a criação de cenas foram as gravuras bíblicas de Gustave Doré, o filme ‘‘Lawrence da Arábia’ e as obras de Claude MonetAna Lúcia do Vale
Cult Press

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