Um senhor de cadeira de rodas espera no coreto. Uma mulher, vestida de preto, chega aos gritos e prantos. No alto de um prédio, um homem joga uma coroa de flores. Um cortejo se aproxima. Os franceses do grupo Cacahuete literalmente pararam o trânsito, ontem, em Londrina. Eles levaram ao Calçadão a performance ‘‘Enterro’’, na qual cinco atores interpretam uma família que tenta achar um lugar para enterrar a matriarca.
Aos poucos, o público foi se aglomerando em volta do coreto, movido pela curiosidade. Com a chegada do caixão, os espectadores correm para ver de perto o que está acontecendo. No meio da rua, os atores param um carro e colocam o caixão sobre ele. O motorista, sem entender nada, apenas ri.
Cesar AugustoUm membro da ‘‘família’’ passa mal, uma moça da platéia socorre ...O cortejo vai aumentando com a chegada de dezenas de curiosos que querem acompanhar tudo de perto. Empurra aqui, corre ali. Ninguém quer perder nada. De repente, uma parada em frente a um banco. Eles querem a bandeira nacional que está hasteada num mastro na parede. Com o símbolo verde e amarelo nas mãos, o francês provoca o público: ‘‘Brasil: 0, França: 3.’’ É vaiado, claro. Um funcionário do banco não gosta da brincadeira.
Do outro lado da rua, surge mais um ator, no alto de um sobrado. Vestindo apenas uma camiseta e uma cueca, ele tenta descer uma escada para seguir o cortejo e provoca muitos risos na platéia. Prossegue a correria. O caixão, o senhor de cadeira de rodas e o público atrás. Uma parada no telefone, outra para tomar um chope na lanchonete. Novamente no meio da rua, agora os motoristas não são tão compreensivos. Mão na buzina e vaia do público.
‘‘Ai, eles vão descer a rua e não acredito que nós vamos atrás’’, comenta uma espectadora. O motoboy é surpreendido pela mulher de preto que lhe dá um beijo e sobe na garupa da moto. O senhor da cadeira de rodas agarra uma moça da platéia e a coloca sentada no colo.
Cesar AugustoEmoção: do alto de um prédio um dos atores dá adeus à defunta...Das janelas dos apartamentos, as pessoas acompanham tudo. Os atores tentam colocar o caixão numa camionete, mas o motorista não entra no jogo e vai embora. Apreensivos, outros motoristas fecham o vidro dos carros. O jeito é tentar um táxi. Pior ainda. O taxista barra a brincadeira.
Nesta altura, o agrupamento já está na Praça da Bandeira. No gramado, a francesa resolve tomar sol. Sob a mira das câmeras fotográficas, o marido se prepara para ‘‘entrar em ação’’. Para a surpresa - e uma certa indignação - do público, o francês abaixa as calças. ‘‘Que absurdo, tem criança vendo!’’, murmura uma garota. Abafado o ‘‘escândalo’’, todos seguem em direção às escadarias da Catedral, onde a família pede um minuto de silêncio ao público.
Cesar AugustoFinalmente o grupo embarca num ônibus, a cena dá a medida da insensatez do grupoAlameda Manoel Ribas. ‘‘Mãe, a gente vai no cemitério?!’’, diz uma criança. Na rotatória, os franceses arrancam uma flor do canteiro. Pra que! Vaia neles. Um ônibus urbano se aproxima. A tentativa é entrar com o caixão. Não deu certo. Mais uma parada aqui, outra ali. Agora sim, pela porta de trás, os atores sobem num coletivo e se despedem da platéia.Cesar AugustoNa falta de uma cova, o bueiro da avenida pode ser a solução...Jackeline Seglin

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