Quem já não sonhou em ter o poder de alterar a realidade que atire a primeira revista em quadrinhos. Esta carapuça de Bispo do Rosário, que vemDali, veste nosso Picasso e pisa em nossa Frida Kalo, serve-nos a todos. Até esses trocadilhos são também maneira de alterar o comum, aquilo que nos está determinado como certo.
Em situações do cotidiano, nos surpreendemos longe, pensando, passeando pelo mundo da Lua. Muitas vezes queremos ser outra pessoa e divagamos, mente livre, como se isto fosse possível. Se não é assim tão consciente, com certeza o é nos sonhos.
Mudar, trocar, alterar, desconstruir para refazer de outra forma, enfim, ter o poder de criar outra realidade, ao nosso bel-prazer. Porém, mal conseguimos interferir no que nos cerca. A não ser os artistas, que sabem não só construir um mundo paralelo, como também a maneira de nos transportar até ele, para que vivamos ali nem que seja por uns breves instantes – o tempo que dura uma música, uma peça de teatro, um filme, um livro, um poema, uma dança ou o observar de um quadro.
O francês René Huyghe, no livro ‘‘O Poder da Imagem’’ (Editora Martins
Fontes, 1986) vai direto ao assunto no início do capítulo II, chamado de ‘‘A
Arte e a Realidade’’: ‘‘A Arte apresenta-se como uma divindade de triplo rosto, onde se refletem sucessivamente a realidade exterior, a criação plástica e a realidade interior’’. E mostra como a arte passou de uma forma de captar e retratar a realidade para uma outra, que incorpora ‘‘o inconsciente e os instintos obscuros do homem’’. E existem ainda capítulos cujos nomes já são esclarecedores: ‘‘A Luta e a Ascensão do Espírito’’ e ‘‘Do Irracional à
Ultrapassagem’’.
Dentro da arte, a fotografia sempre foi a que esteve mais ligada à realidade. É, quase sempre, uma forma de observar o mundo. Pode ser um olhar diferente, pouco usual, mas não deixa de ser um olhar sobre o que é real. Por característica própria de captar a luz do ambiente, quase nunca a fotografia tenta alterar a realidade. Mais ainda a fotografia de exterior, que é feita longe dos estúdios – nestes, a luz, o clima e os objetos a serem fotografados podem ser montados, mas não deixam de ser uma realidade dentro da realidade. Uma interferência menor, não comparável ao vôo livre das outras artes.
Os bares também podem ser grandes templos da ausência da realidade. Locais para fuga do real, que permanece lá fora, isolado por uma barreira de álcool – a não ser para os que trabalham no local. Santuários para se cultuar os estados alterados do ser. São os ‘‘paraísos artificiais’’, como diria Baudelaire.
Qualquer arte que se leva para o bar, corre o risco de ser alterada pelo olhar alterado do observador. Mas isso não quer dizer que o olhar altere o que é a realidade do objeto observado. Introduzir a arte no bar é uma subversão dupla, mas não tão diferente quanto apresentá-la em igrejas que também apresentam a realidade de uma forma alterada, distorcida.
Uma fotografia levada para ser exposta dentro de um bar pode sofrer a alteração do olhar do observador que está fora do real-comum ou o real imposto pela sociedade. Coloque-se no bar a foto de um poste com uma placa de rua e o bêbado vai achar muitos significados para aquilo. Ele vai enquadrar a foto dentro da sua própria realidade, a ‘‘realidade interior’’ que falou Huyghe. Sensibilidade à flor da pele, o estado alterado do ser altera a realidade próxima não entrando nela, mas fazendo-a entrar nele e passar pelo filtro dos paraísos artificiais.
De artista e louco todo mundo tem um pouco, diz o antigo ditado popular. A relação do olhar para com o objeto olhado, visto, lido, modifica-o como um olhar de bêbado pois sempre trazemos o objeto para a nossa realidade interior, o nosso filtro. Longe dos paraísos artificiais, como os bares e as igrejas, a fotografia é a arte que mais representa a realidade, mesmo que seja a realidade pela visão do fotógrafo.
Mas o que fazer, quando o fotógrafo subverte a realidade e nos impõe, não a foto, mas a arte com suas infinitas possibilidades de leitura e percepções e tudo isso ainda acontece dentro de um bar? Pode-se multiplicar, ou, pelo menos, multifacetar
o infinito.
Susan Sontag, em seu belo ‘‘Ensaios sobre Fotografia’’ (Editoria Arbor, 1981), diz: ‘‘A fotografia é uma forma de aprisionar a realidade, considerada recalcitrante e intratável; de fazê-la ficar quieta’’. E, depois de comparar a facilidade de se fazer uma obra de arte com o simples ato de apertar o obturador de uma máquina, ao ‘‘auto-sacrifício’’ da literatura de Proust, conclui: ‘‘Enquanto a obra de Proust pressupõe que a realidade esteja distante, a fotografia implica acesso instantâneo à realidade. Mas os resultados dessa prática de acesso instantâneo constituem outra forma de criar distanciamento. Possuir o mundo em forma de imagens é, precisamente, reexperimentar o quão irreal e remota é a realidade’’.
Curitiba experimenta uma rara oportunidade de aprender como a fotografia pode ser uma arte completamente fora do real e completamente arte interior. No ‘‘paraíso artificial’’ do Beto Batata acontece a exposição apropriadamente chamada de ‘‘Luz, Lucidez e Alucinação’’, do fotógrafo-artista Haroldo Viegas.
São fotos, mas não são reais. São uma ‘‘reexperimentação da realidade’’ através de um trabalho de interferência em negativos, positivos, ampliações, ou qualquer que seja a técnica. Fotos puras são violadas, admoestadas pelo olhar e mãos do artista. A arte transforma a fotografia em histeria de imagens. É impossível olhá-las e definir o que é real. Por vezes são duas ou mais realidades se sobrepondo e criando um ambiente onírico, que transgride o real.
São montes rasgados pelo arado da gilete sobre o negativo e a árvore verde no cume, contrastando com o céu arroxeado. São chaminés de fumaça branca e luzes/cruzes na cidade onde se vive e se morre, onde se respira o que não existe na natureza. Cenários rurais ou urbanos que passam pelo mesmo tratamento anárquico e não mais se diferenciam tanto pois podem estar ao mesmo tempo no mesmo lugar: nosso sonhos, nossa memória.
Barcos que navegam no espaço líquido de um cenário do filme 2001 de Kubrick. Pássaros sobre a cidade – e não se sabe se os pássaros ou a cidade estão deslocados, numa sobreposição de imagens que criam uma terceira, ou quarta, ou quinta, ou sinta ou saia.
Haroldo Viegas consegue fazer como todos os gênios e loucos – e só eles –, transformando em coisa simples o que se discute desde que o primeiro homem tentou captar uma imagem em uma caverna, ou na areia da praia. Aquilo era a realidade ou a ficção?
A captação de imagens pela fotografia libertou a arte para procurar suas novas realidades, as paisagens interiores. A fotografia de Haroldo Viegas, liberta a própria fotografia. Assim como a música é a poesia da matemática, Viegas é o poeta da fotografia.
• A exposição ‘‘Luz, Lucidez e Alucinação’’, do fotógrafo Haroldo Viegas, acontece no Beto Batata (Rua Professor Brandão, 678, fone (41) 262-0840), em Curitiba.

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