Um encontro impensável
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
A mulher da estranha figura e o homem das suas figuras estranhas. O mundo é tão pequeno, quanto dado ao acaso e conexões de histórias, que vão virando outras histórias sobre o papel da coincidência. Tarsila do Amaral, a mulher que criou a estranha figura ''Abaporu'', o quadro brasileiro mais famoso, e Valdivino Brandão, um artista plástico e artesão londrinense. Como o mundo é pequeno, as pequenas coincidências também proporcionaram um encontro impensável entre os dois, através do álbum raro ''Tarsila'', publicado pela Lanzara S. A. Gráfica - Editora, em 1966.
A edição limitada de 2 mil exemplares, com 12 reproduções de obras de Tarsila, sendo 10 assinadas pela artista, foi para o lixo. Displicentemente abandonado num saco com garrafas pets, encontrado por Brandão numa rua do Jardim Bancários (Zona Oeste), o exemplar número 1.923 da edição de luxo, considerado uma raridade por colecionadores, fez o link entre a mulher da estranha figura e o homem que se tornou o dono das suas figuras estranhas.
Reproduções de obras, como ''Nu'' (1923); ''Morro da Favela'' (1924); ''Manacá'' (1925); ''Antropofagia'' (1929) e ''Paisagem'' (1965), pintada um ano antes da edição luxuosa, nem as considerações do artista Sérgio Milliet, salvaram o álbum do lixo. ''Um álbum com reproduções é tão importante quanto uma exposição retrospectiva, apesar de não ter cunho didático ou histórico, mas a possibilidade de lembrar tal ou qual a obra, uma presença de todos os instantes da artista'', escreveu Milliet.
Apesar do descaso com as reproduções, incluindo ''Abaporu'', uma das telas mais caras vendidas no Brasil, foi justamente ela que se encarregou de juntar as duas histórias. ''Eu conhecia alguma coisa sobre a história da Tarsila. Deixei para ver o conteúdo do livro somente em casa. Fiquei surpreso com as reproduções'', conta Brandão, que diz ter procurado o Museu de Arte de Londrina (MAL) e a Casa de Cultura para uma avaliação sobre o valor do álbum. Ele chegou a recusar uma oferta de R$ 2,5 mil por ''Tarsila'', dizendo que tem a intenção de vender somente pelo que considera um bom valor.
Proprietário do Sebo Capricho, Marcelo Basques tem experiência na avaliação de coleções raras. Ele comprova que o álbum é uma raridade para colecionadores, acrescentando que existe outro exemplar da edição luxuosa sendo comercializado na internet.
Porém, uma nova história nasce dessa história que as coincidências trataram de escrever. Presente de Tarsila ao marido, Oswald de Andrade, ''Abaporu'' provocou um rompante de estranheza no escritor, que sob inspiração escreveu o Manifesto Antropofágico.
Com a reprodução de ''Abaporu'' emoldurada na parede de casa, Brandão deglutiu a obra de Tarsila para contar a sua própria história - a do homem dono das figuras estranhas - através da sua arte. Em papel arame e cola, o artista plástico criou uma releitura de ''Abaporu'', que nasceu da coincidência de um livro encontrado no lixo e da conexão de várias histórias.


