Um encontro com o corpo
PUBLICAÇÃO
domingo, 03 de agosto de 1997
Zeca Corrêa Leite Curitiba 
Marcelo AlmeidaLuís Arrieta. Quero a simplicidade, a consciência plena de cada movimentoAtendendo a um anúncio de jornal o então executivo Luís Arrieta, de 21 anos, que trabalhava na Cia. Atkinsons de Perfumes, inscreveu-se num teste para bailarino. Cinco anos depois, em 1977, estreava como coreógrafo. Para comemorar as duas décadas de uma profissão que o fez reconhecido internacionalmente, Arrieta prepara o espetáculo-solo L.A. Dança, que deverá estrear no mês de novembro em São Paulo.
O título do novo trabalho é um trocadilho que permite duas leituras: tanto pode ser as iniciais do artista ligadas à dança como também uma alusão direta às suas origens hispânicas, desde que se leia La Dança. Quero festejar dançando, afirma Arrieta
No palco, o bailarino estará apresentando números especialmente criados para esta montagem e outros recolhidos de peças já apresentadas pelas companhias. Apaixonado pelo projeto o bailarino consagra a dança como o prazer do movimento. Será também a oportunidade de rever coisas no próprio corpo.
L.A. Dança, pelas próprias características, será um espetáculo intimista, que não deve ultrapassar a 1h10. O programa terá uma parte sacra, outra profana e Carnaval, com a música de Saint Saens, na qual Arrieta interpretará todos os bichos da obra. Encerra com um número coringa, criado a partir de uma música de Mahler.
São todas peças conhecidas. É um programa muito simples, quase mínimo e minimalista, feito de detalhes, para ser visto muito próximo. Estou com muita vontade de fazer isso, anuncia. Afinal este é o momento para expressar-me diretamente no palco. No papel de virtuose, Arrieta deixa de lado os movimentos difíceis e acrobáticos. Está em busca da simplicidade.
Gosto muito de dançar, mas por ironia dancei muito pouco na minha carreira, lamenta o coreógrafo, que em cinco anos passou de principiante a coreógrafo, numa escala vertiginosa. Foi bailarino, solista, diretor de conpanhia até chegar à coreografia.
Aos 21 anos de idade, Arrieta já tinha tentado as faculdades de Direito, de Arquitetura e feito um ano de Belas Artes. Estava perdido, lembra. Foi quando saiu o anúncio de jornal convidando jovens para um curso de balé masculino no Teatro Cervantes de Buenos Aires.
Nunca imaginei que ia fazer dança, recorda Arrieta. Fui pela curiosidade, mesmo porque na época trabalhava na gerência da Cia. Atkinsons de Perfumes, num cargo promissor. Com a idade que tinha fazer parte da equipe de gerência de uma multinacional é um dado significativo, pondera.
Porém, bastou participar do teste de aptidão para a dança, composto dos movimentos mais elementares possíveis, para que o rapaz caísse no olho do furacão. Fiquei fascinado nesse encontro com o corpo. Aprovado para o curso viu que não tinha como adequar os horários. Não teve dúvidas: pediu a conta do emprego.
Essência - Hoje não consigo me imaginar fazendo outra coisa que não seja a dança, comenta. Depois de assinar trabalhos para companhias de países diversos como a Suíça, Alemanha e Argentina, Luís Arrieta procura outros caminhos dentro de sua arte. À medida que depura os movimentos, torna-se mais difícil a criação.
Questão de tomada de consciência, diz. Quando começamos na profissão, até por um processo de autoproteção, somos tão ignorantes no que fazemos, que até achamos fácil. Por sorte isso é o que nos dá impulso para irmos além.
Essa fase ficou para trás. A de agora é mais exigente, porque estão ali tão somente o artista e a arte. As ilusões cheias de firulas e rococós deram espaço à essência. Estaria o coreógrafo à procura de um possível ineditismo? Pelo contrário, responde Arrieta. Quero a simplicidade, a consciência plena de cada movimento.
Estar no palco, para ele, é um exercício de sentimentos, sensações e humanidade. Seria como um exercício de despir-se interiormente, despojar-se, até estar totalmente vazio de si para se transformar num canal espiritual, ligando o homem ao divino.
O bailarino cita um provérbio chinês, que diz mais ou menos assim: Se eu conseguir ficar vazio como bambu, alguém pode soprar dentro dele e sair um som. Estar em sintonia com essa entrega, que possa se transformar em harmonia, é um desafio. O grande trabalho é conseguir vencer esse ego, esse corpo que me solicita tanto, e poder estar vazio. Isso seria a minha parte. O resto - o talento, a dança - não é meu. É a graça recebida.


