Um 'Dumbo' quase gótico. Mas...
Tim Burton realizou um filme visualmente deslumbrante, mas que deixa a desejar em alguns pontos
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quinta-feira, 11 de abril de 2019
Tim Burton realizou um filme visualmente deslumbrante, mas que deixa a desejar em alguns pontos
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 
Quando a primeira versão de “Dumbo” (a animação) foi lançada, em 1941, a companhia de Walt Disney não passava por bons momentos. A Segunda Guerra Mundial tinha prejudicado muito suas vendas na Europa, e suas produções anteriores não tinham funcionado tão bem quanto o esperado. Mas de um momento de crise saiu uma história pequena, com uma inocência amarga e a melhor cena de “elefantes rosas” que nunca mais veremos no cinema – a expressão “seeing pink elephants” é um eufemismo para alucinações causadas por excesso de bebida alcoólica.

O novo “Dumbo” chega agora à telas voando em momento bem diferente, no momento em que nas bilheterias não há quem faça frente a Disney, dona das superproduções mais aguardadas deste ano (e dos próximos, por que não?), como “Aladim” em maio e “O Rei Leão” em julho. Agora foi possível recuperar este cativante personagem e dar a ele um orçamento literalmente à altura. Mas, no entanto, foram precisamente suas octogenárias simplicidade e ousadia – fatores que que muitas vezes se perdem quando há muito dinheiro em jogo – que fizeram dele um dos clássicos mais duradouros.
Tim Burton, que já se encarregou razoavelmente de transpor para a tela “Alice no País das Maravilhas”, assina um “Dumbo” que fala de maternidade/paternidade como um conceito universal (seja humano ou animal) e não perde a oportunidade de encaixar um previsível, embora necessário, discurso ambientalista, que no modelo original não era nada mais que sugestão. Da versão de 1941 conservou a emoção e ampliou seu relato, num filme que nem é remake e nem sequela: chamemos de reciclagem.
Assim vemos o pequeno elefante – uma construção digital com irresistível brilho azul nos olhos – avançar em sua carreira circense até um parque temático chamado Dreamland, onde os sonhos são construídos por empresários gananciosos e sem alma e o entretenimento se transforma em espetáculo perverso. Talvez um gêmeo diabólico da Disneylandia – uma inesperada autocrítica?
Em sua nova associação com Disney, o diretor de “Peixe Grande”, “Eduardo Mãos de Tesoura”, “A Noiva Cadáver” e “Beetlejuice/Os Fantasmas se Divertem” realizou um espetáculo visualmente deslumbrante (às vezes sombrio como os melhores momentos burtonianos ) mas que não chega ao nível de seus melhores trabalhos (os citados acima são antes de tudo a melhor amostra de sua filmografia; há outros títulos a considerar).
Era de se esperar mais, bem mais de Burton, mas as expectativas diante desta retomada da animação realizada há 78 anos são apenas parcialmente cumpridas. A história oferece toda a demonstração de poderio formal possível e imaginável, algumas boas interpretações (Michael Keaton e Danny DeVito, respectivamente o Batman e o Pinguim de “Batman: o Retorno”, que Burton dirigiu em 1992) e vários momentos engraçados. Mas em meio ao artifício e à espetaculosidade, fica difícil se envolver emocionalmente. A proposta vira um constante embate: ao mesmo tempo ela é muito Disney e muito Burton, mas apenas em seus postulados básicos – o medo do diferente, uma das constantes na melhor parte de sua filmografia).
Uma maneira interessante (e útil) para se aderir ao filme é acompanhar os personagens que carregam os emblemas mais importantes, representantes de duas formas antagônicas de entender o espetáculo. De um lado, como mandam os cânones da vilania, o manipulador, inescrupuloso, perverso empreendedor V. A. Vandevere(Keaton), para quem o circo deve ser somente uma grande indústria do entretenimento que serve para ganhar muito dinheiro. O contraponto é Max Médici (DeVito), aquele ingênuo que acredita no sonho, aquele com a vocação artesanal do eterno circo, da magia que o tempo e o dinheiro foram continuam aos poucos tentando extinguir.
Pode-se pensar ainda que “Dumbo” implica em refletir sobre os novos canais do espetáculo audiovisual (cinema, plataformas, Disney, Netflix, independência...). Embora Burton não seja cineasta de subtextos, alguma coisa deste viés está aqui presente. Mas “Dumbo” é também um filme acomodado, que não ataca com firmeza aquilo que questiona. E se dobra, em certos aspectos, diante do cinema mais tradicional, mais conservador do selo Disney. Na dúvida, vale uma revisão dos belos e originais “Peixe Grande” e “Eduardo Mãos de Tesoura”.


