Um dramaturgo de coração valente
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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Adriana Ito<br> Reportagem Local 
Atire no dramaturgo. O nome do blog de Mário Bortolotto é emblemático: diz, com todas as letras, que ele enfrenta o mundo de peito aberto, disposto a encarar, olho no olho, o cão raivoso que é a realidade.
Atirar pode ser xingá-lo, escrachar seu trabalho, olhá-lo de cima para baixo e até mesmo estereotipá-lo, que ele não liga. Mário nunca se preocupou em agradar, mas sim em buscar a integridade em tudo. Assim, é melhor chegar nele dizendo 'que porcaria essa sua peça', desde que com argumentos, do que mentir um 'legal, cara' sem ter entendido bulhufas do que seu texto quis dizer.
Londrinense, nascido e crescido do outro lado da linha do trem, habituée de vernissages para beber vinho de graça (quando jovem) e do meio-fio das calçadas na madrugada (até hoje), Mário nunca escondeu que seu universo sempre foi mesmo do outro lado da linha. A massa densa em que a noite submerge, a certeza de que não há lugar no mundo onde a gente se encaixe sem sobrar nenhuma aresta.
Ao expor e explorar esse mundo feito de pontas, Mário faz com que o público olhe no espelho e enxergue as próprias vísceras, meta a mão na parte interna do intestino delgado. Ele escancara a violência, aquela praticada contra si mesmo, a que nos faz agredir o outro, a que rege o mundo com o nosso consentimento. Com a crueza sincera de sua arte, Mário nos permite uma autoanálise do que somos e temos vergonha, e de como permitimos que isso cresça e nos domine.
Ironicamente, atiraram no dramaturgo da única forma totalmente inaceitável, no extremo da violência, na ausência total de razão. Durante o Ato Público pela Recuperação de Mário Bortolotto e Contra a Violência realizado esta semana, os amigos se referiam a ele como o ''coração valente'' - porque uma bala atingiu-lhe o coração, mas este já vinha tão cheio de cicatrizes que não ia parar por uma causa tão comezinha.
Na vila cultural Cemitério de Automóveis, as cerca de 50 pessoas presentes puderam recordar e reinterpretar a obra do dramaturgo e poeta, na voz de Rodrigo Garcia Lopes (que incorporou também os trejeitos do Marião), Maurício Arruda Mendonça, Célia Musilli, Herman Schmidt, Beatriz Bajo e outros artistas de relevante atuação na cidade. E, de repente, na comoção daquela noite, ficou muito claro: atiraram no dramaturgo e agora, além de sua obra, a sua vida também é um alerta contra a violência. Pensando bem, ambas sempre buscaram a tal da felicidade e da paz. Apenas, para ele isso tem outro nome - sossego - e outra conotação, bem mais verdadeira e plausível. E possível.


