Ao longo da obra de uma vida, todo artista regressa vez ou outra a uma mesma história, ainda que às vezes não pareça - a isto chama-se recorrência. Ou autoplágio, como preferem alguns. Com ''Um Beijo Roubado'', em lançamento na cidade (veja a programação de cinema na página 2), Wong Kar Wai se reafirma como o cineasta de um só filme. Ou quase. Ou não. Primeiro foi ''Amor à Flor da Pele'' (ainda que um olhar nos anos 1990 poderia encontrar elementos comuns nos filmes anteriores dele), de 2001, seguido três anos depois por sua desesperançada e confusa sequela, ''2046''.
Agora, este ''My Blueberry Nights'', literalmente saboroso título original, representa para o diretor de Hong Kong, senão sua primeira incursão em linguagem e ambiente estranhos, mas também a possibilidade de continuar relatando esta mesma história com perspectivas distintas e personagens não demasiadamente diferentes, marcados por um destino comum - aquele do encontro fortuito em seguida aos respectivos fracassos amororos.
No universo de Kar Wai, quem encontra a felicidade no amor são sempre os outros, nunca os protagonistas, e talvez por isto mesmo são abandonados. Desde logo os demais não existem: ou não são vistos nunca, como em ''Amor à Flor da Pele'', ou são apenas entrevistos através de uma janela sórdida, como em ''Blueberry Nights''. Estão ali somente para comunicar aos protagonistas, aos desamparados, que a eles não foi concedida a possibilidade amorosa, e que resta somente tentar uma e outra vez mais remendar, buscar com calma ou angústia. E talvez obter, mesmo sem saber - e isto representará um novo fracasso -, o benefício de um próximo filme. É cruel, mas fascinante.
Se bem que os Estados Unidos são terra estrangeira para Wong Kar Wai, não se trata da primeira experiência fora de seus domínios habituais. Em ''Felizes Juntos'' filmou em Buenos Aires e Foz do Iguaçu, ainda que sem abandonar jamais os subúrbios de Kong Kong, seus miseráveis quartos de pensão, seus bares na semi-escuridão, suas ruas de piso irregular e mal iluminadas. Esta é a paisagem interna, o traçado arquitetônico da alma de Kar Wai - e de seus personagens, claro. São fantasmas que habitam bares e ruas de qualquer canto do mundo. Mas se de todos os cafés do mundo a Ilse de Ingrid Bergman tinha que escolher logo o de Rick em Casablanca, em Wong Kar Wai é o contrário: o amor sempre está à margem, como nos personagens solitários do pintor da cena íntima americana, Edward Hopper.
Em cena agora Lizzie (a cantora Norah Jones) e Jeremy (Jude Law). Sem profissão definida, ela acaba de ser dispensada por um homem, assim sem mais. Ele é mais resignado desde sua última ruptura. É balconista de seu próprio bar. E justamente sobre o balcão há uma espécie de aquário onde estão empilhadas as chaves de muitas frequentadoras. Ali, sob a custódia do bom confidente Jeremy, os meios de acesso às casas onde já não vive ninguém mas onde com certeza seus antigos moradores viveram tempos de felicidade.
Lizzie deposita ali seu chaveiro. Depois de várias noites de conversa sussurrada à moda Kar Wai com Jeremy, depois de muito comer sua torta preferida, ela decide cair na estrada, andando e parando, andando e parando, Memphis, Nevada, seja lá onde for. E on the road, os encontros. O policial depressivo e alcoólatra (David Strathairn), inconformado com o desprezo da ex-mulher (Rachel Weiz) e a frágil, ciclotímica e jogadora compulsiva (Nathalie Portman), com quem estabelece estranho vínculo. Mas o contato com Jeremy é sempre mantido através de cartas, embora não forneça a ele o paradeiro preciso. Quem sabe estes dois ainda vão se reencontrar, embora nenhum deles saiba que carrega uma inexplicável dose de ansiedade.
Em boa hora Kar Wai cruzou o oceano e fez este seu primeiro filme em inglês. E não somente em inglês: realizou um filme extremamente made in USA, onde a rota, os bares com janelas de néon, o desencanto, as solidões em busca espiritual, o encontro com desconhecidos e a redenção (ou não) do amor são tanto paisagem como protagonistas. E num filme assim, a trilha musical não poderia ser pouca coisa. Além de incorporar no clima temas da própria Norah Jones, Cat Power, Otis Redding, Cassandra Wilson, Gustavo Santaolalla e Ry Cooder, oferece ainda, em versão de harmônica, o ''Tema de Yumeji'', que era o leitmotiv de ''Amor à Flor da Pele''. Outra ponte de Kar Wai, a do sr. Chow (Tony Leung) e da sra. Chan (Gong Li) agora reencarnados nos desencantados Lizzie e Jeremy.

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