Um drama convertido em comédia
Um drama convertido em comédia
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Dorico da SilvaCena
de
O CasamentoA grande maioria dos escritos de Nelson Rodrigues apresenta um desfile de tragédias provocadas por desejos confessos e, principalmente, inconfessos de seus personagens. São dramas familiares pontuados por pesadas doses de ironias onde o inconfesso se impõe como bomba relógio em seu diário tic-tac.
O Casamento, romance de 1966, não foge a este universo rodrigueano, ou melhor, acentua-o. A tragédia é uma decorrência natural quando o tênue limite entre o casto e o obsceno é rompido. O dramaturgo defendia que o puritanismo sempre esconde a violenta repressão do sexo e que mais cedo ou mais tarde a represa se rompe.
O espetáculo O Casamento, de Antonio Abujamra e João Fonseca, apresentado ontem e anteontem, no Filo, pela companhia carioca Os Fodidos Privilegiados, oferece uma nova leitura da história de Nelson Rodrigues. A tragédia é totalmente transformada em comédia. Com atores de forte presença de palco, o humor redesenha o drama com tamanha eficiência a ponto de diluí-lo.
A montagem evidencia o sexo. O sexo carregado de humor. Seja na predominância absoluta da cor vermelha do cenário associado a um órgão sexual feminino em dimensões gigantescas, seja na cômica caricatura dos tiques sexuais dos personagens. A malícia invade territórios limites, como a santidade e a perversidade, brinca em ambos e sai assoviando.
A versão cômica de O Casamento realizada por Abujamra e Fonseca parece indicar que as perversões apresentadas por Nelson Rodrigues na década de 60 não causam mais impacto nem polêmica nos dias de hoje. Assim, a opção pelo humor vem corrigir a defasagem dos costumes pelos anos afora.
Tratado como tragédia, O Casamento poderia, no passado, levar o espectador a espelhar suas mais íntimas perversões e sumariamente renegá-las. Tratado como comédia, realiza um processo diverso. O espectador, morrendo de rir, é levado a comportar-se como cúmplice das chamadas perversões. Como cúmplice, não as renega, compreende-as, pois não pode condená-las.





