Um discurso sobre o lugar da arte
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 26 de junho de 2001
Rubens Pileggi Sá De Londrina Especial para a Folha 2 
Se há um termo em que se possa enquadrar as questões estéticas relativas tanto a arte moderna, quanto a arte dita pós-moderna, esse termo seria encontrado em uma palavra que possuísse a idéia de hibridismo enquanto possibilidade de reunião tanto das categorias tradicionais das artes plásticas - como pintura, escultura e desenho, por exemplo - quanto a do englobamento de certas linguagens surgidas nos últimos 50 anos como happening, body-art, instalação, penetrável, objetos sensoriais, arte conceitual, arte processual, arte ambiental, etc..
De fato, se podemos pensar nos movimentos artísticos enquanto disciplinas que se desenvolvem em um determinado contexto sócio-cultural-econômico-tecnológico da humanidade, então podemos dizer que a chamada era Moderna - iniciada no Renascimento, com o advento da burguesia - continua sendo a era em que vivemos, uma vez que as relações de produção são as mesmas desde aquela época. O que não quer dizer que o modernismo ainda seja o movimento ao qual os artistas possam se engajar para extrair uma nova concepção sobre arte e sociedade para o tempo em que vivemos.
No modernismo, a idéia de que a arte devia servir para alimentar seu próprio discurso, era uma tomada de posição em relação à nova sociedade industrial em plena expansão, ao surgimento da fotografia, ao fim da representação realista do mundo. Considerava-se, então, a força de cada categoria artística enquanto disciplina autônoma e independente uma das outras. Assim, a escultura, a pintura, o desenho e a gravura foram procurar seus próprios modelos de compreensão da realidade, mas somente questionando sua própria estrutura interna - o rebatimento da luz, a materialidade da cor, a expressão do traço no desenho, etc. - se apropriando da realidade, quando muito, nas questões temáticas ou na pura descarga emocional expressiva do artista.
Mas, pelo menos da segunda metade do século 20 para cá, não só tais categorias passaram, cada vez mais, a se misturarem, como também a relação entre arte e vida tornou-se mais estreita. O artista começava a deixar o quadro, as tintas, o pincel e o cavalete como suporte para suas inquietações e começava a pensar o mundo como matéria possível de intervenção. Já não existia mais um lugar privilegiado para o acontecimento da arte, nem uma maneira padronizada disto acontecer, um modus operandi que desse conta da diversidade e das possibilidades de ação.
Da cidade à paisagem, do corpo aos conceitos, da palavra à imagem, formas híbridas, transdisciplinares e transculturais agora confrontam a noção de arte enquanto discurso de afirmação autônoma. Talvez por entendermos que vivemos em redes de interdependência, em um universo de relatividades e diversidades, do qual a idéia de um centro irradiador perde sua razão.
Desse modo, houve um despojamento do conteúdo estético valorizando o processo de criação ao invés do resultado de sua forma final, de sua beleza plástica, vamos dizer. Não que tais mecanismos de sedução tenham sidos abolidos, mas não é possível mais ficar admirando uma pintura sem pensar na história na qual ela está inserida. Outra coisa, o trabalho artesanal perdeu espaço para o projeto. Mais do que nunca, a idéia da arte come cosa mentale, de Da Vinci, continua como sentença válida. E, por fim, o uso de materiais nobres para enriquecer o aspecto formal da obra tornou-se irrelevante diante do uso de materiais não artísticos, que correspondem a uma função específica dentro do trabalho, como plásticos, objetos, merda ou carne, por exemplo. A idéia, o conceito agora é que amarra a força de um objeto inserido nas questões e nos circuitos da arte.
Tais procedimentos incorporam não só o que é visível, mas também o que pode imaginado, pensado, percebido, sentido e desenvolvido como material mental, metafórico, abstrato. Por isso, se há um lugar para se pensar a arte contemporânea, este lugar também deve incluir o seu oposto e, além dele, sua própria negação, sempre com a possibilidade de apropriações, inversões e trocas dessas posições.
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