Abusado esse Damon Cough. A faixa de apresentação de ''Have You Fed the Fish?'', seu último disco, já nas lojas brasileiras, começa com aquele irritante barulho de turbinas de avião que impregnado na classe econômica de um boeing. ''Pessoal, se vocês derem uma olhada para fora, no lado direito do avião, verão uma nuvem que parece igual ao Badly Drawn Boy'' fala o comandante pelo sistema de som. Após o zum-zum-zum dos passageiros (''parece mesmo'', comenta um deles) o avião entra no espaço aéreo, melódico e único do inglês Damon Cough. Ou melhor, de seu alter ego artístico, Badly Drawn Boy.
Assim como fez em ''Hour of the Bewilderbeast'', o CD de estréia lançado há três anos, Cough surpreende pela beleza pop que aflora aqui e ali em suas canções, e pela maneira com que passeia sem medo por estilos diversos. Repetem-se agora boa parte dos acertos do disco anterior: os ecos de John Lennon solo, as delicadas harmonias folk, influências dos conterrâneos The Smiths (Cough também é de Manchester), e mesmo instrumental hip-hop.
Enquanto todos elogiavam White Stripes e Strokes, o Boy ouvia velharias como o pop sessentista do The Left Banke, e o inclassificável ''The Golden Age'', disco do ainda mais inclassificável Bobby Conn, rocker de Chicago. Por isso talvez é que ''Have You Fed the Fish?'' nunca trilha um caminho fácil. A faixa-título é uma dramática balada, com pianos épicos, seguida por ''Born Again'', rock guitarreiro que Neil Young podia ter gravado em 1972.
''All Possibilities'', a melhor do CD, espanta pelo duelo entre pianos, violões e o arranjo de cordas. Grudenta, fica na cabeça até encher a paciência. Há também ''Centrepiece'', uma vinheta no estilo das que costuravam as canções do disco anterior, e ''The Further I Slide'', um soul-rock que imita ''Sexual Healing'', mas não é exatamente plágio do hit de Marvin Gaye. Há quem argumente que Badly Drawn Boy não acerta em todas as músicas. Tudo bem: é o preço que paga quem aceita riscos e desafios ao produzir um belo disco pop.