Na capa do CD - ilustrado com uma foto de um carrinho de supermercado abarrotado de cocos, um deles roxo - está o nome dele. Pela lógica, trata-se de mais um CD de Gilberto Gil, o velho e bom baiano, certo? Certo. Quer dizer, mais ou menos certo. É que para Gil, ‘‘O Sol de Oslo’’ (selo Pau Brasil, com distribuição nacional feita pela gravadora Eldorado) não deve ser louvado apenas como um produto só e exclusivamente seu. ‘‘Sou o artista com mais visibilidade, com uma presença mais nítida e consolidada junto ao público. Minha imagem oferece esse suporte, mas é um disco coletivo’’- explica.
E ele tem razão. Afinal, em ‘‘O Sol de Oslo’’, produzido e idealizado por Rodolfo Stroeter, a musicista Marlui Miranda tem também uma participação efetiva (e igualmente importante) seja como cantora, instrumentista, pesquisadora ou compositora. ‘‘A minha idéia era de fazer um trabalho com Gil em que pudesse reverenciá-lo e levar minha maneira, meu impulso orgânico de fazer música’’- afirma Marlui.
E na cozinha, sofisticada cozinha diga-se de passagem, há quituteiros de primeira como o percussionista indiano Trilok Gurtu, o acordeonista brasileiro Toninho Ferragutti, o pianista e tecladista norueguês Bugge Wesseltoft e também Rodolfo Stroeter, nos baixos acústicos e elétricos.
Apesar disso, os focos de luz, inevitavelmente, acabam se convergindo para Gilberto Gil. Que, junto com Stroeter, assina a direção musical. Portanto, ‘‘O Sol de Oslo’’, mesmo com a diplomacia e humildade do mestre baiano, acaba sendo, por via de regra, mesmo mais um disco de Gilberto Gil. E um disco interessantíssimo que, como explica o idealizador, acabou descambando para a singeleza nordestina - também pudera, Gil é baiano e Marlui Miranda, cearense. Daí...
E daí que o disco-projeto de Rodolfo Stroeter é pop num sentido mais simplista, levemente experimental num plano mediano e esteticamente inteligente num patamar superior. Trata-se de um trabalho que foi sendo desenhado aos poucos. Depois da participação no disco‘‘Ihu, todos os Sons’’, disco de Marlui Miranda, Gil manifestou a vontade de ele e Stroeter fazerem algo juntos. Era 94. Nesse ano, compuseram ‘‘Xote’’ e ‘‘Kaô’’. E a coisa toda começou a tomar forma. Marlui entrou na parada e com Gil compôs ‘‘Eu te Dei meu An钒 além de apresentar algumas canções de domínio público colhidas por Mário de Andrade.
Repertório pronto, linha musical definida, hora de ir aos estúdios. Mais precisamente no Rainbow Studio, na Noruega. ‘‘Já tínhamos prática de gravar lá por ser um estúdio eminentemente acústico, que grava com presteza, rapidez e adequação técnica que julguei ser interessante a esse disco’’- explica Stroeter.
Foram 30 horas de gravações. Ou três dias em que Gil e cia. se trancaram durante dez horas para registrar ‘‘O Sol de Oslo’’. Gravado, tudo certo, matriz dentro da mala e o projeto estava pronto. Mas não ao ponto de ser lançado no mercado. Foram necessários quatro anos para chegar ao público. ‘‘Esse tempo foi necessário para a maturação do selo e da consequente responsabilidade que a gente tinha de colocar esse disco num patamar adequado tanto no Brasil como lá fora’’- diz Stroeter.
Das músicas gravadas na Noruega, duas ficaram de fora por não se adequarem à estética do disco - a instrumental ‘‘Vatapᒒ (do indiano Trilok Gurtu) e ‘‘Músico Simples’’ (de Gil, composta em 73 e gravada pelo sofisticado Johnny Alf). Em compensação entraram duas inéditas do compositor - ‘‘Onde o Xaxado Tᒒ (em parceria com Rodolfo Stroeter) e a emblemática ‘‘Oslodum’’, gravadas e mixadas no Brasil em 98.
No total, o disco acabou com um repertório de 14 músicas, entre inéditas e releituras como ‘‘17 na Corrente’’ (Edgard Ferreira-Manoel Firmino), sucesso de Jackson do Pandeiro; e ‘‘A Língua do P꒒ (de Gil, gravada em 70 por Gal Costa) e a preciosidade perdida ‘‘A Santinha Lá da Serra’’ (Moacir Santos-Vinicius de Moraes).
Dentro das produções fonográficas atuais, ‘‘O Sol de Oslo’’ teve um custo razoavelmente barato - R$ 50 mil. ‘‘O disco caminhou junto com as possibilidades financeiras que tínhamos na época’’- admite Stroeter. ‘‘É um disco barato sim. Não me proponho a ser um gigante e, sim, uma pessoa que colabora criativamente com a MPB através de projetos de diversas matizes’’- complementa.
O disco sai com uma tiragem inicial de 10 mil. A pretensão é que atinja, até o final do ano, a marca das 50 mil cópias vendidas no Brasil. No exterior, o disco será distribuído nos EUA, Europa e Japão, através de gravadoras que absorvem o catálogo produzido pelo selo Pau Brasil. Shows promocionais por enquanto nada definido. ‘‘Para isso é necessário haver condições favoráveis de dinheiro, agendamento, etc. Mas se Deus quiser o mercado vai pedir isso’’- acredita Stroeter.
O Jornalista Antônio Mariano Júnior viajou a São Paulo a convite da Pau Brasil/Eldorado

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